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O sistema de troféus tornou-se uma ferramenta para diversão ou obrigação?
Há quem diga ser desnecessário e há quem defenda, mas uma coisa é certa: o sistema de troféus do PlayStation gera muita discussão dentro da comunidade. E o debate que nós queremos neste espaço é: gamer de verdade são os platinadores ou os casuais também são?
Nesse artigo exclusivo para os assinantes do Clube MeuPS nós investigaremos como surgiu a cultura de colecionar os troféus, o porquê os jogadores estão interessados nessa mecânica e se, de fato, quem prefere apenas concluir a história ou vivenciar o modo fácil não deve ser considerado gamer.

Há um fato: os troféus apelam para os instintos de recompensa. Completar uma atividade e ser premiado com um aviso – por mais que seja simples – é um golpe direto no nosso sistema nervoso.
O psiquiatra Rodrigo Grassi, pesquisador no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, aponta que o cérebro processa a sensação de prazer ou satisfação por questão de sobrevivência. Ou seja, é inato do ser humano. Independentemente se caçar troféus é uma devoção ou uma distração, ver a conquista aparecer na tela gera o pensamento: “Olha só, eu consegui!”
De pouquinho em pouquinho! Faltam 3 biomas
Returnal
Congelado no Tempo (GOLD)#PlayStationTrophy #PS5Share, #Returnal pic.twitter.com/NXXL8VldOk— Raphael Batista (@raphaelbcx) June 4, 2021
Essa experiência positiva gera dopamina, substância responsável pelo prazer, que promove diversos efeitos no corpo, como aumenta a coordenação motora, alivia dor e aumenta a motivação. A partir deste ponto, explica-se uma parcela dos caçadores de troféus: eles fazem isso porque o cérebro é estimulado a oferecer prazer vendo as conquistas digitais.
A verdade é que em um mundo realista cheio de dificuldades e, muitas vezes, injusto com dedicação das pessoas, os videogames oferecem uma possibilidade de recompensar direta e objetivamente o esforço: através dos troféus.
A Psicologia explica essa relação do indivíduo e tarefas concluídas pelo termo empowerement, criado por Spreitzer num ambiente empresarial, mas que podemos utilizá-lo como analogia. A definição abrange quatro características: competência de realizar a tarefa; impacto do resultado final; autodeterminação para se concentrar e significado do objetivo conquistado.

Uma platina que exige competência nos controles e impacta o jogador pela sua autodeterminação, cria um significado único de sua conquista. Essa cadeia de eventos, motivada pela dopamina pelas sensações de conquistas, explica bem o porquê as pessoas se tornam Trophy Hunters.
O atrito surge a partir do momento do último momento do empowerement: o significado da platina. É nessa etapa que os caçadores podem valorizar a conquista a ponto de torná-la um medidor de habilidade. A lógica é a seguinte: “Se eu levei um grande esforço para coletar todos os troféus, logo sou bom nisso. Se eu sou bom, quem não tem a platina, não é”.
No fórum da PSN Profiles, um dos maiores sites de tracking de troféus, há vários relatos sobre como os jogadores que se sentem bem ao ver suas posições de líderes em patamares acima dos demais.
A construção lógica está baseada no sentimento de competitividade, característica também inerente ao ser humano. A comparação da conta pessoal com as de amigos ou com influenciadores digitais incita uma necessidade de se afirmar superior, ou como na lógica anterior, melhor.

É neste momento que formam as torcidas organizadas que acaloram a discussão. De um lado, estão os caçadores de platina que acreditam estar em outro patamar por conta das suas conquistas; de outro, estão os jogadores casuais que alegam ser bobeira ou perda de tempo a busca pelos troféus.
Infelizmente, os grupos que se formam perdem a oportunidade de experimentar o que os videogames oferecem de melhor: opções para todos os gostos. Reduzir a experiência alheia, a qualquer que seja, não expressa a realidade porque os jogadores possuem sentimentos e sensações diferentes ao longo de suas jornadas.

Os Trophy Hunters possuem suas justificativas em “extrair mais tempo dos jogos” durante a coleta dos troféus, mas isso não é, definitivamente, um parâmetro para estabelecer uma régua de verdadeiros gamers. Afinal, gamer de verdade é quem aproveita o jogo da maneira que preferir.
Os jogadores mais casuais que não estão interessados nas conquistas virtuais podem se divertir na mesma intensidade ao completar somente a trama. Enquanto os caçadores precisarão, às vezes, ficar presos em um título específico até coletarem a platina, essas pessoas mais descompromissadas poderão se aventurar em outro universo sem o estresse de zerar no modo mais difícil ou cumprir todas as missões secundárias.
Há espaço para os diversos tipos de gamers, desde os mais hardcores até os casuais, mas todos eles não deixam de ser jogadores. São escolhas de experiências adequadas para o desejo e diversão de cada um, e ninguém deve se vangloriar ou ser humilhado por isso.
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