Jogo
Marvel's Wolverine
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Quando os primeiros gameplays de Marvel’s Wolverine foram divulgados, alguns jogadores “mais exigentes” reclamaram dele ser “um filme interativo”. Bom, talvez ele seja. E, para o desespero dessa galera, não, isso não faz dele “menos videogame”. Pelo contrário.
Marvel’s Wolverine é necessário. Para a geração atual. Simples, direto, divertido. Nem todo jogo precisa ter diversas camadas narrativas, gameplay complexo, puzzles dificílimos ou árvores de habilidades onde é preciso construir builds estratégicas. Assim como nem todo filme tem que ser Laranja Mecânica ou Pulp Fiction. Às vezes, a gente só quer um Adam Sandler na Sessão da Tarde. Ou um Van Damme na Tela Quente.
E é justamente aí que a aventura de Logan desenvolvida pela Insomniac Games se encaixa tão bem. Ele tem o padrão de qualidade que se espera de um jogo AAA com essa pegada hollywoodiana, personagens icônicos e uma jogabilidade divertida e gostosa, especialmente nos combates. Se você procura aquela ação eletrizante, para passar um tempo, destroçar inimigos e (re)viver momentos com o mais famoso dos X-Men, pode ir sem medo.
Marvel’s Wolverine é a nova aventura de ação da Insomniac Games, que já fez um excelente trabalho com Marvel’s Spider-Man, em parceria com a Marvel Games e exclusivamente para PlayStation 5. Em vez de adaptar uma história específica dos quadrinhos, o jogo apresenta uma narrativa original centrada em Logan e em sua relação conturbada com o próprio passado. Três anos depois de abandonar a Equipe X e acreditar que havia deixado Wolverine para trás, ele acaba obrigado a retornar ao grupo em seu momento mais crítico, quando mutantes começam a desaparecer pelas mãos de Bolivar Trask e de seus aliados.

A ameaça de Trask serve como ponto de partida para uma história sobre sobrevivência mutante, mas também para uma exploração mais pessoal de Logan. Convencido da superioridade humana, o vilão conduz uma campanha de perseguição e captura de mutantes, colocando Wolverine novamente ao lado de outros integrantes da espécie em uma luta que passa por temas como identidade, lealdade e memória. Enquanto tenta impedir uma possível aniquilação dos mutantes, Logan também precisa confrontar acontecimentos esquecidos de seu próprio passado e entender melhor quem ele era antes dos eventos do jogo.
Personagens como Jean Grey, Mystique e Sabretooth fazem parte dessa jornada, assim como adversários conhecidos do universo Marvel, entre eles Omega Red e os Reavers. Essa busca leva Wolverine por diferentes partes do mundo. A campanha passa pelas regiões geladas do Canadá, pelas ruas de Tóquio e por Madripoor, a famosa nação insular do universo Marvel, dividida entre áreas como Lowtown e Hightown. Não temos um mundo aberto como nos jogos do Homem-Aranha, privilegiando ambientes construídos ao redor da narrativa, exploração e grandes sequências de ação. A ideia é combinar momentos cinematográficos de grande escala com trechos mais focados nos personagens.
É no combate, porém, que Marvel’s Wolverine mais se distancia dos trabalhos anteriores do estúdio. Logan é rápido e ágil, mas seus golpes são muito mais violentos, com sangue, desmembramentos e ataques usando diretamente as garras de adamantium. O sistema permite perseguir, emboscar ou simplesmente atropelar os inimigos em confrontos diretos, combinando diferentes Técnicas e Adaptações para modificar suas capacidades. Atacar continuamente gera Fúria, que aumenta o potencial ofensivo de Wolverine, enquanto seu fator de cura reforça a sensação de controlar alguém capaz de sobreviver a situações que seriam fatais para outros personagens. O resultado é brutal.

Toda essa experiência foi construída especificamente em torno do PS5, utilizando o SSD para reduzir drasticamente os carregamentos durante a viagem entre diferentes regiões e os recursos do DualSense para transmitir os impactos, golpes e o uso das garras por meio do feedback háptico e dos gatilhos adaptáveis. O Tempest 3D Audio também é utilizado para dar maior percepção espacial aos confrontos, enquanto a Insomniac mantém o investimento em opções de acessibilidade visto em seus trabalhos anteriores.
Mais do que simplesmente colocar Wolverine dentro da fórmula de Marvel’s Spider-Man, portanto, a proposta parece ter sido encontrar aquilo que define Logan como personagem e construir o jogo ao redor disso: um protagonista extremamente poderoso, violento e resistente, mas também alguém carregado de traumas, memórias incompletas e uma relação bastante complicada com a ideia de ser um herói.
A jogabilidade de Marvel’s Wolverine é simples. Você usa quadrado e triângulo para bater nos inimigos, e combina o L2 com quadrado, triângulo, círculo ou x para aplicar habilidades especiais que vai desbloqueando ao longo do game. Além disso, ele tem duas skill trees: uma de técnicas, que vão dando boosts nessas habilidades, e adaptações, que funcionam como melhorias genéticas em Logan que fazem com que ele possa ter, por exemplo, restauração de saúde mais rápida quando ele reage a um determinado tipo de ataque.

Temos, sim, muitos quick time events – aqueles momentos em que você fica só assistindo à cena e apertando um ou dois botões que aparecem na tela. Poderiam ser menos? Certamente. No entanto, todos encaixam bem com a proposta do jogo e com os momentos narrativos, até mesmo os que ficam mais para a parte final da aventura, então, no fim das contas, está pago. Especialmente porque há também muitos, muitos momentos em que você tem que fazer uma combinação intensa de botões para lidar com os inimigos.
Até porque, de novo, o combate é realmente a estrela de Marvel’s Wolverine. Seja nas lutas contra os NPCs mais comuns, seja nas Boss Fights, o jogo oferece mecânicas bastante interessantes, que lembram alguns dos principais jogos que já vimos no PlayStation nos últimos anos. Dá para sentir um pouco de Marvel’s Spider-Man, é claro, mas com pitadas de Ghost of Tsushima e God of War, por exemplo. Tanto pela velocidade quanto pela brutalidade. E encaixar os combos com as habilidades, os bloqueios e as esquivas faz tudo ser bastante satisfatório no fim do dia.
Além disso, o jogador pode colecionar garrafas de whisky que estão espalhadas pelos cenários e coletar materiais em baús. Estes são usados para desbloquear novos trajes e garras. Ao todo, são 32 trajes, desde os mais tradicionais até alguns bem diferentões, para deixar Logan no estilo. Um deles, inclusive, deixa o personagem com o estilo animado de X-Men. Outra coleção de sidequests está nas memórias. Wolverine quer saber mais sobre seu passado e isso acaba acontecendo ao fazer as missões de Pesadelos, que são portas místicas espalhadas por todas as regiões.

A ideia, com tudo isso, é fazer com que o jogador tenha mais a fazer do que “simplesmente” seguir o roteiro linear da história. Que acaba sendo relativamente simples, porém cativante o bastante para te fazer seguir em frente. Apesar de alguns clichês, como todo bom filme de Tela Quente, a narrativa traz motivações e temas interessantes, mesmo que óbvios para um jogo do Wolverine – como o “preconceito” contra os mutantes e a eterna “disputa com os humanos”.
Mas o fato de ser uma história original merece ser valorizado, especialmente pela coragem de abordar a relação entre Logan e Jean Grey de peito aberto. Não só isso. Temos também as origens da rivalidade com Sabretooth, a relação com Essex e participações importantes de personagens que todo mundo já conhece – só que infelizmente não têm seus nomes traduzidos. Só de escrever Sabretooth e Mystique na análise já bate um certo estranhamento, mas é assim que eles são chamados no game, mesmo na dublagem brasileira (que é ótima, como de costume).

Assim como as atuações dos principais personagens. Troy Baker dá um show, como de costume, no papel do Doutor Essex, e Jean Grey, em dados momentos, parece até mais protagonista do que Wolverine. O elenco foi bem escolhido, os personagens também. Apesar de a representação de Deathstrike, que não é chamada de Lady, ser um pouco diferente do tradicional, o balanço é extremamente positivo. Sabretooth é mais um que merece elogios pela forma visceral como é retratado.
Visualmente, Marvel’s Wolverine faz um bom trabalho. Nada de espetacular, apenas correto diante das expectativas. A ambientação, por outro lado, é muito bem feita. Os cenários são super bem construídos e variados, tanto em termos de impacto gráfico quanto de trilha sonora. Em termos de desempenho, o jogo foi bem na maior parte do tempo, porém tivemos bugs importantes: um em que foi necessário deletar o jogo e o save para avançar, mas felizmente foi bem no começo, quando uma cutscene que deveria acontecer para dar prosseguimento ao jogo simplesmente não ativou, e outro em que retornar do último checkpoint, já na parte final do game, resolveu.
Marvel’s Wolverine é exatamente o tipo de jogo que parece ter entendido o que precisava ser. Não tenta reinventar a roda, não quer ser a experiência mais profunda da geração e nem esconde sua vocação para o espetáculo. A Insomniac pegou um dos personagens mais populares da Marvel, construiu uma campanha linear, cinematográfica e violenta ao redor dele e entregou uma aventura que, na maior parte do tempo, é simplesmente muito divertida.
O combate sustenta boa parte dessa experiência. É rápido, brutal, responsivo e consegue passar muito bem a sensação de estar no controle do Wolverine. Somado aos bons personagens, às participações que vão agradar aos fãs dos X-Men e a uma história original que sabe trabalhar os principais conflitos de Logan sem complicar demais as coisas, o resultado é aquele jogo que você começa e dificilmente sente vontade de largar. Não porque exista sempre uma grande surpresa esperando na próxima esquina, mas porque jogar continua sendo gostoso.

Isso não significa que tudo funcione perfeitamente. Os quick time events poderiam aparecer menos, a estrutura de exploração é bastante convencional, algumas ideias narrativas passam por caminhos previsíveis e os bugs encontrados durante a análise, especialmente o que me obrigou a apagar jogo e save para continuar, são problemas que não podem ser ignorados. Visualmente, também não é aquela experiência que redefine o que esperamos do PS5. Ainda assim, nenhum desses pontos foi suficiente para apagar aquilo que Marvel’s Wolverine faz de melhor.
Às vezes, tudo o que você precisa é de algumas horas de ação, personagens que você gosta, uma boa dose de violência e um protagonista com garras de adamantium destruindo tudo pelo caminho. Marvel’s Wolverine entrega exatamente isso, com competência, personalidade e o padrão de qualidade que se espera da Insomniac. E, para quem estava com saudade de um grande jogo de ação simples, direto e divertido, isso já é mais do que suficiente.
Veredito
90
Desenvolvedor
Insomniac Games
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1
Veredito
90
Jogo
Marvel's Wolverine