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As mídias físicas de jogos podem estar com os dias contados?

Mudanças econômicas nos Estados Unidos podem gerar impactos fortes no setor de games

As mídias físicas de jogos podem estar com os dias contados?

As políticas tarifárias do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, implementadas desde o início de seu segundo mandato em janeiro de 2025, estão gerando ondas de choque em diversos setores da economia global — e a indústria de videogames não é exceção.

Com tarifas de 25% sobre importações do México e do Canadá e de 10% sobre produtos da China, especialistas alertam que o mercado de mídias físicas de jogos pode estar com os dias contados, acelerando uma transição já em curso para o formato digital.

O contexto das tarifas de Trump

Donald Trump assumiu seu segundo mandato em 20 de janeiro de 2025, e rapidamente cumpriu uma de suas promessas de campanha: impor tarifas significativas aos maiores parceiros comerciais dos EUA.

A medida, que já está em vigor, aplica uma taxa de 25% sobre bens importados do México e do Canadá — países que integram o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) — e 10% sobre produtos chineses, com ameaças de escalada para até 60% no caso da China.

Segundo Trump, o objetivo é proteger a economia americana, reduzir déficits comerciais e pressionar México e Canadá a intensificarem o controle sobre imigração ilegal e tráfico de drogas, enquanto desafia a China em uma nova guerra comercial.

No entanto, economistas e analistas da indústria de games apontam que os consumidores americanos — e, por extensão, globais — é que estão arcando com os custos.

donald trump
Fonte: Reprodução

Dados do Departamento de Comércio dos EUA mostram que, em 2023, o comércio com México e Canadá somou US$ 1,6 trilhão, enquanto as importações da China atingiram US$ 401 bilhões nos primeiros 11 meses de 2024.

Esses países são peças-chave na cadeia de suprimentos de videogames, especialmente para mídias físicas como discos de Blu-ray usados em consoles como PS5 e Xbox Series.

O papel do México e da China na produção de mídias físicas

O México emergiu nas últimas décadas como um centro vital para a manufatura de mídias físicas de jogos destinados ao mercado norte-americano.

A proximidade geográfica, os custos competitivos e os acordos comerciais do USMCA tornaram o país uma escolha estratégica para empresas como Sony, Microsoft e Nintendo, que produzem discos e cartuchos em larga escala em cidades como Guadalajara e Tijuana.

Estima-se que cerca de 60% dos jogos físicos vendidos nos EUA em 2024 tenham origem mexicana, segundo projeções da Circana (antiga NPD), uma das principais firmas de análise de mercado.

Já a China domina a produção de componentes eletrônicos e embalagens, além de ser uma fonte secundária de mídias físicas. Consoles como o Nintendo Switch, por exemplo, dependem fortemente de cartuchos fabricados em fábricas chinesas, enquanto a infraestrutura mexicana muitas vezes utiliza matérias-primas importadas da Ásia.

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Fonte: Nintendo

As tarifas de Trump, portanto, criam um efeito cascata: encarecem tanto a produção direta no México quanto os insumos provenientes da China.

Impacto econômico: números que dizem muito

A imposição das tarifas já começou a refletir nos custos. Um estudo da Associação de Tecnologia do Consumidor (CTA) estimou, ainda em novembro de 2024, que tarifas de 10% a 25% sobre produtos chineses poderiam elevar os preços de videogames em até 40%.

Com as taxas agora em vigor, analistas como Mat Piscatella, da Circana, preveem que o custo médio de um jogo físico, que em 2024 girava em torno de US$ 60, pode saltar para US$ 75 ou mais em 2025, dependendo da origem do produto.

No México, o impacto é ainda mais pronunciado. A tarifa de 25% adiciona cerca de US$ 15 ao custo de produção de cada disco, considerando que o preço médio de fabricação por unidade é de US$ 5 a US$ 10, segundo dados da ESA.

Para as editoras, isso reduz drasticamente as margens de lucro, especialmente em um mercado onde os jogos digitais já competem agressivamente com preços mais baixos e sem custos logísticos.

Dados de vendas de 2024 mostram que as mídias físicas ainda representam uma fatia significativa do mercado: cerca de 30% dos US$ 58,7 bilhões gerados pela indústria de games nos EUA vieram de vendas de discos e cartuchos, conforme a ESA.

No entanto, esse número já vinha caindo — em 2020, a proporção era de 40% — e as tarifas podem acelerar essa tendência. Piscatella observou em janeiro de 2025: “Com tarifas de 25% sobre o México, posso ver uma queda acentuada no número de jogos lançados fisicamente nos EUA. Se continuarem sendo produzidos, os preços subirão, tanto físicos quanto digitais, para manter a paridade.”

Reação da indústria e o fim das mídias físicas

As grandes editoras já estão recalculando suas estratégias. A Sony, que depende bastante de discos blu-rays para o PS5, anunciou em fevereiro de 2025 que está “avaliando opções” para mitigar os custos, enquanto a Microsoft, mais focada no digital com o Xbox Game Pass, pode ver uma vantagem competitiva.

A Nintendo, por sua vez, enfrenta um dilema com o Switch, cujos cartuchos são caros de produzir e agora encarecem ainda mais com as tarifas chinesas.

A ESA emitiu um comunicado alertando que “tarifas sobre dispositivos de videogame e produtos relacionados impactariam negativamente centenas de milhões de americanos e prejudicariam as contribuições significativas da indústria para a economia dos EUA.”

Pequenas editoras, que muitas vezes dependem de edições físicas limitadas para atrair colecionadores, estão em situação ainda mais precária, enfrentando a escolha entre absorver os custos ou repassá-los aos consumidores.

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Fonte: Reprodução

O aumento nos preços também pode empurrar os jogadores para o mercado digital. Plataformas como Steam, PS Store e Xbox Store já dominam as vendas, oferecendo conveniência e promoções frequentes.

Em 2024, 70% das vendas de jogos nos EUA foram digitais, e analistas preveem que esse número pode ultrapassar 85% até 2027 se as tarifas persistirem.

Consequências culturais e o fim de uma era

Além do impacto econômico, o declínio das mídias físicas representa uma perda cultural. Para muitos gamers, possuir um disco ou cartucho é mais do que conveniência — é uma conexão tangível com a história dos videogames, um item de coleção que carrega nostalgia.

No México, trabalhadores da indústria de manufatura também sentem o golpe. Estima-se que mais de 50 mil empregos diretos estejam ligados à produção de mídias físicas no país, e um colapso nesse setor poderia agravar os desafios econômicos locais, ironicamente aumentando a pressão migratória que Trump busca conter.

Por que as mídias físicas podem resistir

Apesar das pressões econômicas e da tendência digital, há argumentos sólidos para acreditar que as mídias físicas não desaparecerão completamente.

Uma pesquisa da GfK realizada em dezembro de 2024 revelou que 35% dos jogadores americanos ainda preferem comprar jogos em disco ou cartucho, citando a posse física como uma garantia contra a dependência de servidores online e a possibilidade de revenda — algo impossível no mercado digital.

Além disso, edições de colecionador, que frequentemente incluem discos acompanhados de itens exclusivos, continuam sendo um nicho lucrativo para empresas como Limited Run Games, que faturou US$ 45 milhões em 2024 com lançamentos físicos limitados.

Limited Run Games
Fonte: Limited Run Games

A resiliência desse público apaixonado, aliada à resistência de varejistas como GameStop, que planeja abrir 50 novas lojas nos EUA em 2025, sugere que as mídias físicas podem sobreviver como um mercado de nicho, mesmo diante das tarifas de Trump.

O futuro incerto

Embora o México tenha conseguido um adiamento de 30 dias nas tarifas em março de 2025, após negociações que incluíram o envio de 10 mil soldados à fronteira, a incerteza persiste. A China, por sua vez, retaliou com tarifas sobre produtos americanos em 4 de fevereiro, intensificando a guerra comercial.

Economistas como Greg Daco, da EY, preveem que o “tarifaço” de Trump pode reduzir o crescimento econômico dos EUA em 1,5 ponto percentual em 2025, enquanto leva México e Canadá à recessão.

Para a indústria de games, o veredito é claro: as mídias físicas, já em declínio, podem não sobreviver a essa tempestade econômica. Se as tarifas de Trump persistirem, 2025 pode marcar o início do fim de uma era, com os discos e cartuchos relegados a relíquias de um passado analógico.

Resta aos jogadores e às editoras se adaptarem a um futuro cada vez mais digital — ou lutarem contra uma corrente que parece irreversível.

Você acha que as mídias físicas estão respirando por aparelhos? Comente!

Fonte: Eurogamer

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André Custodio

Redator

Fã de jogos de terror e desbravador de soulslike vez ou outra. Consegui me livrar de FIFA por motivos pessoais (ruindade) e hoje me sinto uma pessoa melhor. Também curto platinas, mas não vou atrás de algo que me tira do sério.

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