Jogo
Metal Gear Solid Delta: Snake Eater
O nome é Snake. Naked Snake.
Vinte e um anos depois, um dos maiores jogos de videogame de todos os tempos está de volta. O aclamado Metal Gear Solid 3: Snake Eater, considerado por muitos não só o melhor da franquia, como um marco na história da indústria, agora é Metal Gear Solid Delta: Snake Eater. Mais moderno, adaptado para a nova geração de consoles, porém com o mesmo espírito de duas décadas atrás, provando (mais uma vez) que Hideo Kojima sempre esteve muito à frente de seu tempo.
Se hoje nos impressionamos com a qualidade cinematográfica de Death Stranding 2: On The Beach, que é o trabalho definitivo do lendário produtor (até agora), (re)jogar a história cheia de estratégia e reviravoltas do Naked Snake no meio de selvas soviéticas em uma combinação de James Bond e Rambo, mostra como esse legado vem de muitos anos atrás. É jogo, mas é cinema. É arte. Como a sua incrível abertura, recriada hoje com a música-tema regravada por Cynthia Harrell, resume bem:
E, passada a Guerra Fria entre Hideo Kojima e Konami, pode-se dizer que a empresa acertou em cheio ao trazer esta experiência para as novas gerações. Snake, The Boss, Zero, Eva, Ocelot, Volgin e Unidade Cobra estão de volta em toda a sua glória, aproveitando tudo o que a tecnologia pode oferecer para deixar o que já era excelente ainda melhor em Metal Gear Solid Delta: Snake Eater.
Metal Gear Solid Delta: Snake Eater é ambientado em plena Guerra Fria, no ano de 1964 – período em que o mundo estava dividido entre dois blocos geopolíticos e militares muito claros: o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, é claro, guiado pela União Soviética. A trama acompanha uma tentativa de infiltração de um agente da CIA, conhecido pelo codinome “Naked Snake”, a uma importante base militar em meio a florestas soviéticas.
Contando com o suporte via rádio de Major Zero, Para-Medic e de sua antiga mentora, The Boss, ele recebe a missão de resgatar o cientista soviético desertor Nikolai Sokolov, responsável pelo desenvolvimento secreto do Shagohod, um tanque com capacidade nuclear que é considerado como uma grande arma inovadora capaz de mudar os rumos da guerra – que era apenas de influência, não militar até então.
Durante essa incursão, porém, Snake encontra uma traição inesperada e uma grande reviravolta que termina com mísseis disparados contra uma instalação russa, gerando um incidente geopolítico grave, que faz com que ele tenha que se arriscar de novo, e ainda mais, para provar que não houve um ataque americano à soberania soviética.
Neste caminho, ele tem que lidar não só com a pressão e as expectativas de ambos os governos, como também com a sombra da sua ex-mentora, The Boss, as tentações de uma agente-dupla, Eva, e inimigos com os poderes sobrenaturais da temida Unidade Cobra, além de soldados de elite soviéticos do general Volgin e seu braço direito, Ocelot. A missão? Derrotar todos eles, destruir o Shagohod e provar que o ataque nuclear contra a instalação russa foi um incidente isolado e não planejado.
E algo bem bacana que vemos durante toda essa trama é como a fixação de Hideo Kojima por cinema influencia em Metal Gear Solid Delta: Snake Eater. As referências são claríssimas. Desde o nome da agente-dupla, Tatiana, o mesmo de uma das principais coadjuvantes de Moscou Contra 007, segundo filme da franquia de James Bond, que também tem o conflito político-ideológico entre EUA e URSS como plano de fundo, até a temática de selva de Rambo, à fuga à la Fugindo do Inferno…

O IMDB tem até uma lista de filmes que são referenciados no game – seja com citações diretas ou inspirações. E toda a estrutura da narrativa lembra bastante a de um filme mesmo. Alguns diálogos e cenas são meio cringe/clichês, mas no geral, ele consegue cumprir sua missão: prender o jogador e entregar uma história que envolve, engaja e surpreende. Mesmo que você veja alguns dos twists chegando, ainda é capaz de impressionar.
Se você jogou Metal Gear Solid 3, sabe do que estamos falando. Se ainda não jogou, também pensamos em você e não demos spoilers aqui. Mas fica a dica: fique com os ouvidos atentos na tela pós-créditos de Metal Gear Solid Delta: Snake Eater.
Em Metal Gear Solid Delta: Snake Eater, a jogabilidade segue o estilo de stealth característico da série, porém traz inovações importantes. O jogador controla Snake em território hostil, devendo evitar ser detectado enquanto utiliza armas, equipamentos e a clássica caixa de papelão. A novidade é a ênfase na camuflagem: trocar uniformes e pinturas faciais de acordo com o ambiente aumenta o “índice de camuflagem”, o que é essencial para passar despercebido nas florestas soviéticas.
O sistema de combate corpo a corpo (CQC) também foi expandido, permitindo agarrar, imobilizar e até interrogar inimigos. Outra mudança é a mecânica de sobrevivência: Snake precisa caçar, pescar e se alimentar para manter sua energia, além de ter o tratamento ferimentos de forma realista — como fraturas e cortes — que afetam diretamente sua resistência e mobilidade. Essas adições tornam a experiência mais imersiva e ligada ao ambiente selvagem que domina grande parte do jogo.
Algo bem bacana do game é o sistema de comunicação em rádio. Como está isolado na selva, Snake se comunica com seus aliados usando frequências de rádio. Seja em mensagens que já vêm automaticamente na história, seja usando a ferramenta para pedir algum tipo de informação durante a aventura. Ajuda bastante em alguns momentos em que você pode ficar um pouco empacado.
Ou seja, Metal Gear Solid Delta: Snake Eater é, na sua essência, um jogo difícil, estratégico e stealth. Mas calma! Se você não gosta tanto dessa pegada, ainda é possível ter sucesso no game indo para o confronto, com exceção de algumas missões em que é obrigatório passar despercebido. Ele oferece várias opções de dificuldade, desde o very easy até uma em que, se um guarda te identificar, você “morre”, e tem um arsenal de respeito para quem prefere o Rambo ao 007.
E, claro, até mesmo James Bond causa algumas explosões e precisa usar a força bruta e suas armas mais pesadas em alguns momentos, né? Com nosso Snake, não é diferente. Ele tem diversas opções de camuflagem e fazer tudo nas sombras é bastante recompensador. Só que também há aqueles momentos de briga direta, de caos, principalmente nas boss fights contra os integrantes da Unidade Cobra.

A unidade é formada por membros únicos e poderosos: The End, um atirador de elite lendário, descrito como “pai do sniping moderno”; The Fear, com agilidade e flexibilidade sobrenaturais, ficando quase invisível; The Fury, ex-astronauta desfigurado que tem simplesmente um lança-chamas e um jetpack; The Pain, que controla enxames de vespas para atacar ou se defender; e The Sorrow, o espírito de um médium já falecido.
Este último, inclusive, é uma experiência singular. O primeiro, por sua vez, é descrito pelo próprio Kojima como sua boss fight favorita do game. Por ser uma batalha em uma selva aberta, onde ele, como bom sniper que é, fica bem camuflado. Segundo Hideo, é possível que a luta “dure horas”, mas também que ela nem aconteça – porque existe uma forma de matá-lo em um momento anterior do jogo.
O gameplay de Snake Eater era inovador para a época, e parece ótimo para os dias de hoje. Especialmente porque a versão modernizada da Konami permite que os jogadores controlem Snake da maneira “old school”, com a câmera vista de cima, ou no formato 3D mais comum dos dias de hoje, bem mais livre. Esta parece ser a melhor opção para realmente ver todo o trabalho feito pelos desenvolvedores, e claro, ter uma vivência diferente e mais adaptada ao que estamos acostumados atualmente.
Visualmente, não precisamos nem falar muito, né? O salto de um jogo do PS2 para o PS5 é absurdo, e a Konami mandou bem na atenção aos detalhes, na ambientação e na criação dos personagens. É tudo muito bem feito. Estamos realmente diante de um jogo AAA dessa geração – que já tem como característica esse retorno de grandes jogos que fizeram sucesso há muitos anos. A parte de áudio de Metal Gear Solid Delta: Snake Eater também está perfeitinha, tanto nos efeitos, quanto na trilha.
Além disso, ela traz alguns conteúdos bônus legais: um mini-game com Ape Escape, exclusivo para PS5, outro com Guy Savage, um modo para rever as cutscenes, algumas cenas desbloqueáveis, galeria de informações de animais capturados e comidas obtidas, dados sobre os personagens, coleção de camuflagens e uma área de estatísticas da sua jogatina.

Resumidamente, Metal Gear Solid Delta: Snake Eater pegou um dos melhores jogos de todos os tempos e conseguiu elevá-lo a um patamar ainda maior. Pode não ser para todo mundo, especialmente por ter muitas cutscenes (algumas bem longas), um tema político bastante forte no enredo e um gameplay que premia o comportamento mais tático e stealth, mas é um jogaço.
Uma obra-prima dos videogames com um frescor de nova geração que é muito bem-vindo. Mais de vinte anos depois, ainda estamos em um sonho.
Ah, e o nome é Boss. Big Boss.
Veredito
95
Desenvolvedor
Konami
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1
Veredito
95
Jogo
Metal Gear Solid Delta: Snake Eater