O declínio da Brasil Game Show: onde foi que a BGS se perdeu?
Ingressos caros, grandes ausências e poucas atrações marcam o declínio da BGS em 2026
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Ingressos caros, grandes ausências e poucas atrações marcam o declínio da BGS em 2026
A época mais esperada do ano, para mim, sempre foi o mês da Brasil Game Show. Eu passava boa parte do ano contando os dias para chegar à BGS, encontrar os amigos, conhecer novas pessoas e viver o mundo dos games em toda a sua intensidade.
Não só eu, mas muita gente.
Durante anos, a feira representou uma oportunidade para milhares de jogadores conhecerem lançamentos, experimentarem novidades e ficarem próximos das maiores empresas da indústria de videogames. Para muitos, era o único momento do ano em que isso se tornava possível.
Só que o mundo não é mais o mesmo. E, depois de visitar a edição de 2026, a sensação que ficou foi bastante amarga.
A Brasil Game Show parece ter se perdido.
O que encontrei neste ano foi uma feira consideravelmente mais pobre em atrações, com menos expositores de peso, poucas experiências realmente memoráveis e uma área de alimentação que, visualmente, parecia ocupar o protagonismo antes reservado aos videogames.
Não estou falando de uma edição apenas um pouco abaixo das expectativas. Estou falando de uma mudança que parece atingir a própria identidade do evento.
E o mais preocupante é que existem razões para acreditar que essa transformação não aconteceu por acaso e tende a piorar se algo não for feito.
Para entender o tamanho do problema, vamos fazer um retrospecto.
Em 2019, a Brasil Game Show aconteceu no Expo Center Norte, em São Paulo, reunindo grandes empresas da indústria. PlayStation, Xbox e Nintendo estavam presentes. O evento também contava com marcas como Epic Games, Intel, Logitech, HyperX, YouTube, Facebook Gaming, Twitch e diversas fabricantes de hardware e acessórios.
Era uma feira na qual praticamente qualquer corredor oferecia alguma atração que valia a pena pegar uma fila ou, ao menos, dar uma espiadinha sem compromisso.
Havia estandes enormes, demonstrações de jogos, ativações, campeonatos e oportunidades de experimentar produtos que muitos brasileiros ainda não conheciam.
A BGS era um verdadeiro parque de diversões para quem gostava de videogames.

Voltemos para 2026.
PlayStation e Xbox não tiveram estandes próprios. Fabricantes como AMD, Intel, Logitech e HyperX também estiveram ausentes como grandes expositoras, assim como plataformas de conteúdo que anteriormente movimentavam a feira, como YouTube e Twitch.
Você deve ter percebido que não se trata apenas de marcas ou participações. O problema é a ausência de experiências capazes de justificar a viagem e o investimento de quem compra um ingresso.
Faltaram experiências.
Seria injusto dizer que não havia atrações bacanas na BGS 2026.
A Nintendo foi um dos grandes destaques do evento, com um estande de aproximadamente 1.000 m². A empresa demonstrou a importância de oferecer um espaço de verdade para os jogadores, com experiências que valorizam seus produtos, franquias e personagens.
A SEGA também merece muito reconhecimento. Com um estande maior do que o apresentado em 2025 e uma ótima seleção de jogos, a companhia conseguiu entregar exatamente aquilo que se espera de uma feira desse porte: videogames para conhecer e experimentar.
Parece que voltamos aos anos 90, não é? Mas estes são dois exemplos positivos em meio a coisas que deixaram a desejar.
Quando empresas investem em experiências relevantes, fica evidente que o público continua interessado nesse tipo de evento.
O problema é que a BGS já não consegue mais reunir atrações suficientes para corresponder à dimensão que construiu ao longo de sua história.
Talvez nenhuma comparação ilustre tão bem o momento da Brasil Game Show quanto observar os mapas de 2019 e 2026.
Em 2019, o espaço do Expo Center Norte era ocupado por uma grande variedade de estandes de empresas diretamente ligadas ao universo dos games. PlayStation, Xbox, Nintendo, Epic Games, Facebook Gaming, YouTube Gaming e fabricantes de hardware disputavam a atenção do público.
A distribuição transmitia a imagem de um evento diversificado, no qual diferentes segmentos da indústria estavam representados.
Em 2026, já no Distrito Anhembi, a configuração é diferente.
O que mais chamou a atenção, sabe o que foi? A área de alimentação.
Foram grandes blocos do mapa ocupados por mesas, cadeiras e estabelecimentos gastronômicos.
Naturalmente, os dois locais possuem estruturas e dimensões diferentes. Não seria correto utilizar apenas esses mapas para determinar a redução percentual da área de exposição.
Ainda assim, a mudança de perfil é evidente.
Em 2019, os games foram protagonistas. Em 2026, a estrela foi… a comida!?

E a galera, obviamente, não perdoou e transformou isso em meme.
A Brasil Game Show passou a ser chamada por alguns de “Brasil Gastronomia Show”. Uma brincadeira em tom de crítica.
Não existe problema algum em uma feira oferecer bons espaços para alimentação.
Pelo contrário, um evento que recebe milhares de pessoas precisa de uma estrutura adequada para atender ao público.
O problema começa quando isso se torna uma das características mais marcantes de um evento que deveria celebrar os videogames.
Também encontrei um estande vendendo panelas. Sim, panelas.
Primeira BGS focada na culinária da história!
Boa parte é praça de alimentação, mdsss https://t.co/7L0CaBGdpy— Sou o Dreas 🍥 (@DreasBro) October 9, 2026
É claro que eventos precisam de patrocinadores e expositores comerciais. Mas existe uma diferença entre oferecer produtos relacionados ao público gamer e transformar espaços de uma feira de videogames em oportunidades comerciais sem qualquer conexão evidente com seu tema.
Quando faltam grandes empresas de games, mas sobra espaço para vender panelas, é razoável questionar quais são as prioridades do evento.
A sensação é de que a BGS passou a se preocupar mais em preencher espaços do que em oferecer experiências relevantes.
Essa talvez seja a pergunta mais importante à qual quero chegar.
Durante a cobertura da edição de 2026, o MeuPlayStation conversou com pessoas ligadas à indústria que conhecem os bastidores da participação de empresas em eventos desse porte.
Os profissionais, que terão suas identidades preservadas, relataram que participar da Brasil Game Show pode representar um investimento extremamente elevado.
Segundo esses relatos, dependendo da dimensão da participação e das condições comerciais, os valores cobrados pela organização podem chegar à casa dos milhões de reais para uma única marca.
E a conta não termina na contratação do espaço.
É necessário considerar o desenvolvimento e a montagem dos estandes, o transporte de equipamentos, a infraestrutura técnica, os profissionais, a hospedagem, os deslocamentos, a segurança e toda a operação necessária para manter uma atração funcionando durante os dias de feira.
O investimento total pode se tornar gigantesco.

Outro ponto mencionado pelas fontes é a dificuldade nas negociações com a organização do evento.
Segundo os relatos, as tratativas comerciais podem ser pouco flexíveis, dificultando a construção de projetos que façam sentido financeiramente para determinadas empresas.
É importante destacar que essas informações representam relatos de profissionais ouvidos pelo MeuPlayStation, e não uma confirmação independente dos valores cobrados em contratos específicos.
Ainda assim, ajudam a compreender um possível problema estrutural da feira.
Se os custos são muito elevados e as condições comerciais dificultam a participação, algumas empresas podem simplesmente concluir que existem maneiras mais eficientes de investir seus orçamentos de marketing.
Hoje, uma marca pode organizar eventos próprios, trabalhar com criadores de conteúdo, promover transmissões digitais e alcançar milhões de consumidores sem necessariamente assumir os custos de um grande estande.
Isso não significa que os grandes eventos perderam sua importância.
Significa que eles precisam oferecer um retorno que justifique o investimento.
E, diante das ausências observadas em 2026, cabe perguntar: a Brasil Game Show continua sendo uma oportunidade atraente para as grandes empresas da indústria?
O problema não afeta apenas os expositores.
Para o público, visitar a BGS também se transformou em um passeio muito caro, quase proibitivo.
Na edição de 2026, o ingresso individual para sábado ou domingo chegou a ser anunciado por R$ 224 na modalidade de meia-entrada, no sétimo lote. Isso significa que o valor de referência da entrada inteira era de R$ 448.
E estamos falando apenas do acesso ao evento. Quem decidiu ir de carro precisou lidar com um estacionamento que custava R$ 90 por dia.
Lá dentro, os preços da alimentação também assustavam. Uma fatia de pizza se aproximava dos R$ 50, enquanto uma lata de refrigerante ultrapassava os R$ 15.
Agora, vamos imaginar uma família de quatro pessoas, com dois adultos e dois filhos, todos pagando os valores citados.
Somente com quatro ingressos de meia-entrada, o gasto seria de R$ 896. O estacionamento acrescentaria mais R$ 90.
Se cada integrante consumisse uma fatia de pizza de R$ 50 e um refrigerante de R$ 16, seriam outros R$ 264.
A conta chegaria a R$ 1.250 para um único dia de passeio.

Isso sem considerar combustível, pedágios, compras dentro do evento ou eventual hospedagem para quem vem de outra cidade.
Para famílias que precisam pagar entradas inteiras, o valor pode ser ainda maior.
É um investimento muito alto para um evento que oferece menos atrações de impacto do que em seus melhores anos.
Não podemos esquecer que o Brasil possui milhões de jogadores que fazem enormes sacrifícios financeiros para realizar o sonho de conhecer uma grande feira de games.
Muitos economizam durante meses, enfrentam longas viagens e levam os filhos para viver um dia especial.
Essas pessoas merecem uma experiência compatível com o investimento realizado.
Uma feira que se torna cada vez mais cara e oferece cada vez menos corre o risco de afastar justamente o público que a transformou em um sucesso.
A dificuldade da Brasil Game Show em reunir grandes expositores acontece enquanto outros eventos conseguem ampliar sua relevância.
A gamescom latam, realizada também em São Paulo, vem apresentando resultados positivos.
Em 2026, a feira recebeu mais de 154 mil visitantes, um crescimento de 17,5% em relação ao ano anterior. Foram mais de 400 jogos apresentados e mais de 60 lançamentos, com a participação de empresas como Nintendo, Electronic Arts, Warner Bros. Games, Riot Games, Roblox e Supercell.
Na Alemanha, a gamescom também continua demonstrando muita força.
A edição de 2026 reuniu 368 mil visitantes de 131 países e contou com 1.743 empresas expositoras, um crescimento de 11% em relação a 2025. A área de exposição alcançou aproximadamente 233 mil m², com ocupação total.
Os números mostram que ainda existe espaço para grandes eventos presenciais de videogames.
Mais do que isso, mostram que empresas continuam dispostas a investir em feiras capazes de oferecer visibilidade, oportunidades comerciais e contato direto com o público.

É claro que cada evento possui características próprias, modelos de negócio diferentes e públicos específicos. Mas a comparação é inevitável.
Se outras feiras conseguem crescer, atrair empresas e ampliar suas atrações, por que a BGS parece caminhar na direção contrária?
Não basta responsabilizar mudanças na indústria ou os custos de produção dos eventos.
A Brasil Game Show também precisa olhar para suas próprias decisões comerciais e estratégicas.
Apesar de todas as críticas, não acredito que a Brasil Game Show esteja condenada.
A feira possui uma marca conhecida, uma história importante e um público que continua apaixonado por videogames.
O Brasil é um mercado relevante para a indústria, e existe uma demanda evidente por experiências presenciais. Mas recuperar o prestígio exige reconhecer que algo não está funcionando.
A organização precisa tornar a participação comercial mais atraente, facilitar o relacionamento com os expositores e buscar ativamente o retorno das grandes empresas.
Também precisa repensar o custo da experiência para os visitantes.
Ingressos caros podem ser justificáveis quando o conteúdo entregue é excepcional. O problema é cobrar valores elevados por uma experiência que já não corresponde às expectativas construídas ao longo dos anos.

Além disso, é fundamental recuperar o foco nos videogames.
Mais jogos disponíveis para teste, mais desenvolvedores, mais experiências exclusivas, mais novidades tecnológicas e atrações que realmente façam diferença para quem sai de casa para visitar a feira.
A Nintendo e a SEGA mostraram que ainda é possível entregar algo interessante.
Mas duas empresas, por melhores que sejam suas participações, não deveriam carregar praticamente sozinhas o protagonismo de um evento que se apresenta como uma das maiores feiras de games do mundo.
Falo como alguém que acompanha a indústria de videogames há muitos anos e que gostaria de ver a Brasil Game Show recuperar seus melhores dias.
Não existe satisfação em presenciar o enfraquecimento de um evento que ajudou a aproximar milhões de brasileiros das grandes empresas do setor.
A BGS teve um papel importante na consolidação da cultura gamer nacional. Criou lembranças, aproximou comunidades, revelou oportunidades e proporcionou experiências que marcaram gerações de jogadores.
O que vi em 2026 foi uma feira que parece ter perdido parte significativa daquilo que a tornou especial.
Os grandes estandes deram lugar a ausências difíceis de ignorar. As experiências diminuíram. Os custos continuaram elevados. E a praça de alimentação acabou se transformando em um dos símbolos mais visíveis dessa mudança.
A Brasil Game Show não precisa ser a maior do mundo em público, metragem ou faturamento.
Precisa voltar a ser um evento que faça o jogador brasileiro sentir que valeu a pena comprar o ingresso, enfrentar a viagem e passar um dia inteiro ali.
E, quando a praça de alimentação chama mais atenção do que os videogames, talvez seja hora de repensar o que a Brasil Game Show deseja ser.
E, principalmente, o que ela deixou de ser.
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