Jogo
Tony Hawk's Pro Skater 3+4
Existem jogos que vão além da tela. Tony Hawk’s Pro Skater foi um desses. Cresci entre rampas improvisadas, tênis surrados e músicas que gritavam liberdade. E por mais que eu nunca tenha virado um grande skatista, aquele universo me moldou de um jeito que carrego até hoje.
Foi com Tony Hawk’s que conheci bandas que mudaram minha vida. Não por acaso, minha playlist adolescente era praticamente a trilha sonora do jogo. A cada objetivo cumprido, uma nova canção grudava na cabeça. O jogo virou mais que um passatempo: virou estilo, atitude, identidade.
Por isso, quando Tony Hawk’s Pro Skater 3+4 chegou, foi como abrir uma cápsula do tempo. Mas também percebi que nem toda lembrança volta do mesmo jeito.
A estrutura de jogabilidade é a mesma usada em Tony Hawk’s Pro Skater 1+2, o que é uma excelente notícia. O jogo é incrivelmente responsivo, suave e preciso. Em questão de minutos, você já está encaixando manobras como se tivesse feito isso ontem.
No PS5, o desempenho técnico é sólido. A taxa de quadros é estável, os gráficos são competentes, mesmo que algumas texturas não impressionem tanto. As pistas estão visualmente bem trabalhadas e os skatistas apresentam modelos fiéis à realidade.
Mas o ponto central da discussão é a decisão de unificar os jogos 3 e 4 em um único formato.

Tony Hawk’s Pro Skater 3 era objetivo, direto, clássico. Dois minutos para cumprir uma lista de tarefas. Errava, recomeçava. A repetição fazia parte da diversão.
Já o quarto jogo propunha algo diferente. Os mapas eram maiores, mais vivos. O jogador explorava livremente e só iniciava desafios ao falar com NPCs. Uma mudança sutil, mas significativa. Era uma evolução da fórmula.
O remake opta por aplicar o modelo do terceiro jogo em todas as fases, inclusive nas que originalmente vinham do quarto. Funciona, mas descaracteriza. Perde-se a essência da proposta mais aberta, mais contemplativa. É uma escolha que busca coerência no pacote final, mas desrespeita a identidade do original.
Fases como Kona mudaram completamente de proposta, e outras, como Chicago, sequer estão presentes. Para os fãs mais puristas, essas ausências são sentidas.

Felizmente, nem tudo é nostalgia remodelada. As novas pistas, como o Parque Aquático e o estágio estilo Pinball, são divertidas, bem desenhadas e cheias de segredos.
A lista de skatistas é ampla e bem selecionada, com destaque para a representatividade brasileira. Bob Burnquist, Letícia Bufoni e Rayssa Leal brilham e mostram a força do Brasil no cenário. A presença da Fadinha, em especial, conecta o passado à nova geração com muita personalidade.

A quantidade de desbloqueáveis, desafios extras e opções de personalização também merece elogios. O jogo recompensa o tempo investido.
O editor de fases está de volta, agora mais robusto. Dá para criar cenários criativos e compartilhar com a comunidade, o que garante uma vida longa ao jogo.
O multiplayer segue um caminho minimalista. É fácil de acessar e jogar, mas pode ser frustrante ao ver as pontuações absurdas dos rankings online. A sensação de ser “bom no Tony Hawk” dura pouco ao lado dos monstros do placar.

Essa parte dói. Apenas 10 faixas clássicas estão presentes. O restante foi substituído por músicas novas. Algumas são boas, outras nem tanto, mas nenhuma tem o mesmo impacto das originais.
Tony chegou a dizer que a ideia era abrir espaço para novas bandas. Pode até fazer sentido comercialmente, mas não cola para quem viveu a era dourada da franquia. A trilha sonora era parte da alma do jogo. E aqui, ela parece incompleta.
Fica a sensação de que dava para ter feito melhor. Incluir todas as músicas clássicas e ainda adicionar novas não seria um desafio técnico. Seria respeito ao legado.
Sim, vale. Mesmo com suas escolhas questionáveis, o jogo é uma baita experiência. Continua divertido, rápido, recompensador. É preciso o suficiente para agradar veteranos e acessível o bastante para conquistar novatos.
O gameplay é afiado, o conteúdo é vasto e o fator replay é altíssimo. A adaptação do estilo do THPS4 pode dividir opiniões, assim como a trilha sonora desfalcada, mas nada disso apaga o brilho daquilo que realmente importa: o prazer de jogar.
Tony Hawk’s Pro Skater 3+4 é, no fim das contas, uma carta de amor ao skate virtual. Imperfeito, mas sincero. E para mim, que cresci com a franquia, isso é o suficiente para colocar o boné de volta e apertar o play com um sorriso no rosto.
Veredito
80
Desenvolvedor
Iron Galaxy Studios
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1 - 2 Jogadores
Veredito
80
Jogo
Tony Hawk's Pro Skater 3+4