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Spiritfarer: vale a pena?

Um jogo de gerenciamento em que o foco é uma história emocionante

por Raphael Batista
Spiritfarer: vale a pena?

A morte não é o fim, e Spiritfarer faz questão de mostrar isso. O título da Thunder Lotus é uma grata surpresa para os fãs do gênero de gerenciamento por trazer mecânicas bastante acessíveis, divertidas e, ir além, contar uma história emocionante.

O game foge das propostas cheias de ação, de tiros, de aventura. Não há monstros a serem derrotados com uma sequência de golpes, não há equipamentos para serem coletados por uma exploração exaustiva, não há níveis para subir e atributos para melhorar; há apenas uma história que move todas as ações do jogador e que a torna mais significativa a cada estação.

Acima de tudo, há a diversão com horas e horas de gameplay.

Sai a Morte, entra a Stella

Spiritfarer narra a história da Stella, uma jovem garota que, simplesmente, assume o lugar da Morte. A entidade decide tirar umas férias e deixa nas mãos da menina a responsabilidade de recolher os espíritos espalhados pelo mundo.

A missão da Stella é bastante simples: com seu barco, ela deve visitar os vários locais e encontrar os espíritos errantes. Eles entrarão na embarcação e cabe à substituta da Morte realizar os últimos pedidos deles. Alguns são mais exigentes, outros, mais amáveis. No entanto, cada ser, representado por figuras animalescas, é único!

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A missão da Stella é ajudar aos outros a encontrar sua própria paz.

O enredo se desenrola conforme o jogador cumpre as tarefas para os espíritos, levando-os a resolver conflitos do passado ou enfrentar o medo do além. Embora sejam histórias diversas, elas funcionam para explicar também mais sobre a protagonista e o porquê dela estar neste cargo.

O foco é a história

É interessante ver como o jogo consegue emocionar com diálogos tão profundos. Inclusive, é preciso gostar bastante de ler para se encantar com Spiritfarer. O foco do game está justamente nas relações que Stella constrói ao longo da jornada e como cada personagem tem sua peculiaridade, passado, comportamento e gostos. Não são superficiais, mas possuem camadas a serem reveladas conforme o jogador passa tempo com eles.

É este o primeiro divisor de águas para decidir se o game entrará no seu catálogo: é preciso se importar com os NPCs que estão no seu barco. Se você não dá a mínima para a relação entre a protagonista e eles, provavelmente Spiritfarer não conseguirá te envolver. Ele ficará limitado a um “game de gerenciamento”.

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Se você não se preocupar com seus tripulantes, dificilmente ficará encantado pelo jogo.

Caso você esteja interessado em se aproximar destas relações, saiba que é um processo de passos demorados. É preciso ler linhas e linhas de diálogo (tudo em inglês, porque não há localização PT-BR), ir de um lado para outro para coletar itens especiais para cozinhar as melhores comidas e dar respostas amigáveis, e outras, confrontadoras.

Por isso, Spiritfarer não é “mais um jogo de gerenciamento”. Assim como This War of Mine, é um game que quer criar um universo crível, emociona quem está no controle, mas traz os desafios de cuidar das pessoas que o jogador se importa.

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Tripulantes, a bordo!

Ao contrário de cuidar de uma cidade ou de uma casa, a Stella cuida de um barco. Na embarcação, ela constrói alojamentos para os tripulantes, levanta estações de produção de comida e de metalurgia. São itens necessários para o avanço das missões e para deixar os “marujos” satisfeitos.

O gameplay funciona de modo bastante simples: na panorâmica em 2D, a protagonista entra nos alojamentos para cozinhar, produzir cerâmica, criar lingotes ou apenas conversar com os espíritos. Tudo funciona com simples toques no botão. Para dar uma variada, algumas tarefas exigem o timing de segurar o quadrado, como apertar o momento exato para dar uma picaretada numa mina ou cortar a roupa para produzir mais tecido.

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Os comandos são limitados para apertar um ou outro botão, esperar a produção ficar pronta ou passar pelos objetos.

Pode parecer um tanto quanto repetitivo – caso você não esteja acostumado com jogos de gerenciamento, ele será! – mas, as mecânicas funcionam de forma tão natural que Spirtifarer consegue extrair horas e horas a dentro que nem é possível perceber o tempo passando.

Falando sobre o tempo, o título tem muito o que oferecer. Quem está preocupado em focar na história principal da Stella levará, no mínimo, umas 20 horas para chegar ao final da trama. Porém, quem deseja realizar todas as atividades e descobrir cada pedacinho deste universo espiritual, é possível ter um tempo de jogo até de 60 horas.

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Spiritfarer não está preocupado nem um pouco em oferecer desafios.

Simples até demais?

A proposta de Spiritfarer pode ser até simplista demais. Ao contrário de jogos de gerenciamento em que é necessário traçar uma estratégia para conquistar os objetivos e deixar a satisfação do público lá no alto, o game entrega tudo muito fácil.

Os recursos nunca são escassos e, mesmo que algum dos espíritos fique chateado, é bastante tranquilo recuperar a moral com alguma comida favorita ou através de presentinhos para a casa deles. Não houve nenhum momento “a hora da crise” onde tudo estava pegando fogo ou estava descontrolado, mas tudo sempre pareceu estar em uma brisa suave e calma.

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Tudo é muito acessível no jogo e os recursos não são escassos como nos games de gerenciamento.

O jogo pecou em talvez trazer um peso a mais de responsabilidade para o jogador. Por exemplo, caso a Stella deixasse a comida no fogão, todos os ingredientes deveriam ficar torrados ou desperdiçados. Mas não acontece isso. É possível deixar o prato no fogo por dias sem sofrer nenhuma alteração na estrutura do prédio ou na própria comida.

Enquanto a execução das tarefas é simples, o entendimento do objetivo, às vezes, é um pouco confuso. O jogo dá as diretrizes para o cumprimento dos pedidos, mas cabe ao jogador explorar as possibilidades e descobrir como atingir as metas. As descrições das missões dão o nome do local e algumas dicas, mas de nada adianta se o jogador não ficar buscando as respostas corretas.

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As missões em Spiritfarer são facilmente concluídas.

Parece até o paraíso…

Spiritfarer merece os elogios no quesito de visual! O título segue uma linha desenhada em 2D, mas é completamente visível o cuidado que os desenvolvedores tiveram com os cenários, os personagens, a ambientação de cada parte do mapa. O simples nunca significou ser feio e o título da Thunder Lotus comprovou exatamente isso: é possível ter uma degustação com os olhos mesmo com um jogo em 2D.

A trilha sonora não fica para trás. Na verdade, tanto a parte visual quanto a sonora são elementos muito importantes para o game. Nos momentos finais de cada amigo de Stella, é muito difícil não se emocionar. Todo o cenário, a trilha sonora, o diálogo, tudo funciona como um conjunto, uma pintura de arte. Nada está desconectado e, ao perceber, todos os mínimos detalhes fazem os jogadores se encantarem pelas ideias apresentadas.

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O simples não é feio e o jogo comprova isso!

… mas não é!

Por mais que Spiritfarer seja bastante simples, existem alguns bugs que incomodam bastante. Na verdade, são capazes de estragar um pouco a empolgação do jogador.

O progresso foi impedido em certos momentos porque os personagens ficaram presos na porta de seus próprios quartos, impedindo dar continuidade à missão. Foi preciso fechar o jogo e abrir de novo, mas como o título não tem salvamento automático, então houve uma perca considerável do progresso – algo crítico para um jogo que exige tanta dedicação.

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Spiritfarer não está isento de bugs e a grande maioria incomoda muito.

A situação ainda é mais chata para quem gosta de platinar.  Há um troféu de cuidar de todos os espíritos e, bem, no meu caso, a progressão de dois foi impedida por nenhum motivo, simplesmente as quests deles não estão mais disponíveis – inclusive, vários usuários relataram esse tipo de problema no suporte da desenvolvedora.

É um pouco frustrante se dedicar por tanto tempo e não ser recompensado por isso. Possivelmente, a Thunder Lotus lançará uma atualização de correção, mas nada está confirmado por enquanto.

Spiritfarer é lindo

Em um universo de games onde o mercado é dominado por ação e títulos frenéticos, é muito divertido acompanhar a jornada de Stella em Spiritfarer. A história é emocionante, os personagens são únicos e a jogabilidade simples são elementos cativantes.

Por outro lado, os problemas técnicos graves, a falta de legendas PT-BR e até a ausência de desafios podem afastar os jogadores mais exigentes. De qualquer forma, o título sai com um saldo positivo pelo conjunto da obra. São mais acertos do que erros, além da proposta de não ficar limitado ao óbvio, e sim querer encantar as pessoas com um mundo fantasioso que conversa com a realidade.

Com horas e horas de conteúdo, Spiritfarer é recomendado, sim!

Veredito

Spiritfarer
Spiritfarer

Sistema: PlayStation 4

Desenvolvedor: Thunder Lotus

Jogadores: 1-2

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80 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Horas e horas de conteúdo
  • Jogabilidade simples
  • Trilha sonora e arte design arrebatadores
  • Uma história emocionante
  • Personagens muito cativantes
Desvantagens
  • Problemas técnicos graves de progressão
  • Falta de legenda PT-BR
  • Ausência de momentos mais desafiadores