Jogo
Reanimal
Em dezembro de 2015, a indústria de videogames se deparou com um caso dramático: Hideo Kojima deixando a Konami e abrindo mão da IP que o consagrou, Metal Gear. Após anos desde a separação conturbada, o diretor mostrou sua competência e criatividade em Death Stranding. A conclusão parecia óbvia: ninguém melhor do que o próprio criador para cuidar da sua obra.
E o que Hideo Kojima tem a ver com Reanimal? Uma história quase parecida. Em 2019, a Tarsier Studios foi adquirida pela Embracer Group e precisou abrir mão dos direitos de Little Nightmares, franquia que colocou o estúdio no radar. Agora, em uma nova casa, a desenvolvedora apresenta uma nova IP, com mais liberdade, mais possibilidades e, no fim das contas, melhor do que Little Nightmares 3.
Reanimal é mais do que um sucessor espiritual do terror protagonizado por pequenas crianças. É uma evolução natural de quem já conhecia os caminhos certos para construir esse tipo de experiência. O novo título resgata ideias que funcionavam, introduz novas mecânicas, consolida sistemas importantes e reforça seu DNA: um terror subjetivo superado pela coragem de heróis improváveis.
Little Nightmares pode ter ficado no passado, mas a qualidade da Tarsier Studios, não. O estúdio poderia ter apenas apresentado uma nova IP com uma roupagem diferente, mas foi além e, felizmente, acertou em cheio.
Reanimal segue uma estrutura parecida com os jogos de Little Nightmares. O jogador é lançado em um mundo hostil e extremamente bizarro, com poucas explicações, mas com um objetivo claro: sobreviver a qualquer custo.
Neste novo projeto, porém, a narrativa aposta ainda mais em elementos surrealistas. Mesmo com símbolos e discursos cheios de entrelinhas, a história deixa evidente o terror da mutação biológica. Poucas coisas são mais assustadoras do que algo familiar se transformar radicalmente em algo desconhecido, e aqui isso aparece o tempo todo.

De pássaros modificados com aparência cadavérica a baleias com estruturas corporais estranhas, os jogadores passam por situações angustiantes. Seja nos momentos de perseguição, que são criativos e cheios de mudanças de perspectiva com uma trilha sonora apavorante, seja pela simples imensidão de um universo macabro.
Ainda assim, a história é subjetiva até demais. Em vários momentos, falta uma explicação mínima sobre por que as crianças estão nesse mundo, qual é o contexto de certos eventos e até um desenvolvimento mais claro da narrativa. Deixar ideias no ar faz parte do mistério de Reanimal, mas às vezes isso parece injusto com o jogador, já que muitos elementos permanecem vagos demais.

Já vale a menção aqui sobre a direção artística e a trilha sonora. Como Reanimal aposta mais na subjetividade, as imagens e sons contam muito. Não dá para negar a beleza do título, até mesmo nos cenários mais pavorosos. É uma contemplação do que é feio, flertando até mesmo com elementos lovecraftianos.
Uma surpresa importante: o título é completamente dublado. As vozes das crianças, por exemplo, casam perfeitamente com a ambientação, trazendo pitadas de terror. Já as composições, principalmente nos momentos de perseguição, acertam no despertar de sentimentos angustiantes.

Reanimal vai muito além de uma simples nova versão de Little Nightmares. Existem semelhanças claras, como a estrutura de plataforma e aventura, mas o jogo oferece mais áreas para explorar, mecânicas bem-vindas e um universo muito mais interessante de compreender — não apenas de fugir.
Um dos destaques está na variedade de cenários. Em vez de repetir ambientes acinzentados, o novo game da Tarsier apresenta locais abertos, com mais luz, cores e diversidade. Não são apenas corredores escuros e apertados: há campos com plantações, caminhos submersos e grandes elevações.

Outra adição importante é a mecânica de combate. Mesmo simples, ela traz um novo tom para a aventura. O jogador pode se defender de algumas criaturas e enfrentar chefões com dinâmicas baseadas em esquiva e ataque no momento certo. Não há sistemas complexos de evolução, apenas o timing de saber quando avançar e quando esperar.
Além do combate, Reanimal também aposta em mais puzzles do que Little Nightmares. Enquanto a franquia anterior seguia um ciclo mais direto de fugir e avançar, Reanimal apresenta um mundo mais expandido, no qual o jogador precisa coletar pistas, resolver quebra-cabeças e interagir com o cenário para progredir.

Essas mecânicas foram bem aplicadas sem que o título perdesse sua essência de terror. A ambientação, os monstros que perseguem as crianças e até os símbolos subjetivos constroem uma atmosfera tensa, curiosa e angustiante.
Talvez um ponto negativo para alguns seja a curta duração. Para quem quer apenas chegar ao final, algo entre 6 e 8 horas é suficiente. Já quem busca finais secretos e colecionáveis pode passar de 12 a 15 horas no total.

Reanimal acerta em cheio ao integrar totalmente a experiência cooperativa entre dois jogadores. Para quem não tem um Player 2, o modo solo funciona bem, com a IA controlando a parceira. Ela alterna entre momentos de inteligência e situações mais limitadas, mas, no geral, cumpre seu papel.
Um dos melhores detalhes é a possibilidade de alternar para o modo cooperativo a qualquer momento. Mesmo que o jogador já esteja no meio da campanha sozinho, ele pode hospedar uma sessão online ou chamar alguém para jogar no sofá e continuar a jornada.

Embora o modo solo seja competente, jogar em co-op parece ser a experiência definitiva de Reanimal. A necessidade de interação, a sensação de apoiar o outro e o medo compartilhado tornam tudo mais marcante. Em momentos específicos, como quando os personagens estão acorrentados, coordenar movimentos com outra pessoa é muito mais intenso do que jogar sozinho.
Além disso, por causa das mecânicas acessíveis, o game se torna convidativo até para quem não tem costume de jogar videogame. Inclusive, o jogo poderia até ser um pouco mais difícil, mas isso não chega a ser um incômodo.

Resgatando as características que fizeram Little Nightmares ser tão bem recebido, Reanimal vai além. Com uma atmosfera ao mesmo tempo convidativa e hostil, o game entrega um universo maior para explorar, mais mecânicas para descobrir e uma jogabilidade cooperativa bem construída.
O título mostra como sequências e sucessores espirituais podem testar novas ideias, em vez de apenas repetir fórmulas com outra história. Reanimal coloca a Tarsier Studios de volta aos holofotes, com a chance de firmar essa nova IP e torná-la até mais conhecida do que sua antecessora.
Mesmo que a estrutura do terror faça o jogo parecer mais condensado e, para a realidade brasileira, ele seja um pouco caro na PS Store, ainda é uma experiência completa que vale o gameplay, especialmente com alguém ao seu lado para enfrentar os sustos.
Veredito
86
Desenvolvedor
Tarsier Studios
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1-2
Veredito
86
Jogo
Reanimal