Jogo
MAFIA: The Old Country: vale a pena?
Política, ambição, tensão, sonhos, assassinatos, traições, duelos morais, personagens marcantes, diálogos intensos, famílias, clichês, reviravoltas. Tudo isso ao som de uma belíssima trilha sonora e com paisagens estonteantes como cenário. Mafia: The Old Country é exatamente o que se espera de uma super produção sobre a máfia italiana no começo do Século XX – que mesmo já tão explorada por filmes, séries e jogos, mantém sua capacidade de envolver e encantar o público.
Localizado cronologicamente antes do primeiro Mafia, o jogo retorna às raízes do crime organizado, levando o jogador para a Sicília de 1900, um cenário pouco explorado pela série até então. Aqui, acompanhamos a ascensão de um jovem protagonista, sem o peso de nomes consagrados como Tommy Angelo ou Vito Scaletta, em meio a disputas de território, códigos de honra e o nascimento das famílias que, mais tarde, moldariam o submundo de Lost Heaven e Empire Bay.
No gameplay, The Old Country mantém o DNA narrativo da série, mas traz ajustes importantes, como algumas missões secundárias e melhorias no combate. Tudo isso com uma ambientação que é, sem dúvida, um dos maiores trunfos do game. A recriação da Sicília rural é rica em detalhes e cria uma imersão louvável. Não perfeito, e tem pontos bem ao estilo “ame ou odeie”, como a história e a sua duração, mas é mais um belo capítulo desta icônica marca dos videogames.
Mafia: The Old Country é o quarto jogo principal da série (quinto no total se contarmos remasters), e serve como uma prequela cronológica da trilogia original. Ambientado nas origens da máfia em terras sicilianas, é um retorno ao estilo mais linear e narrativo que moldou os primeiros títulos da franquia. Ele bebe bastante da fonte de outros produtos sobre o tema, usando recursos bem comuns deste tipo.

A história se passa na Sicília dos anos 1900, na cidade fictícia San Celeste. O protagonista, Enzo Favara, começa como um carusu (trabalhador infantil em mina de enxofre), em 1904. Após um acidente que mata seu amigo Gaetano, Enzo foge e conhece a família criminosa Torrisi, liderada pelo Don Bernardo Torrisi. Ele ascende no submundo local, envolvendo-se em uma trama de poder, lealdade e traição bem do jeitinho que estamos acostumados.
Enzo se aproxima de personagens como Isabella (filha do Don), o underboss Luca Trapani, Cesare Massaro, e o consigliere Tino Russo. A narrativa culmina em eventos dramáticos, incluindo sequestro, resgate e confronto sangrento com consequências marcantes. A narrativa se desenvolve bem durante as cerca de 10-15 horas do jogo, com alguns destinos óbvios e outros nem tanto. O capítulo final é uma montanha-russa de emoções que merece destaque.
Ao mesmo tempo, se você quiser fazer um bingo dos clichês, provavelmente vai acertar todos: o jovem acolhido pela máfia que trilha um caminho de ascensão em uma “famíglia”, um romance proibido, uma briga entre clãs, traições que geram guerras, devoção às santidades católicas, briga entre anarquistas, socialistas e capitalistas, exploração do mundo rural, avanços da tecnologia, sonho americano… Ufa!

É uma bela massa italiana, com todos aqueles ingredientes que a gente já sabe que vão estar ali, e que fazem com que o prato seja delicioso. Mesmo que a gente coma todos os dias. Mas, claro, sempre pode ter quem vai enjoar, achar mais do mesmo, e está tudo bem.
E já que isso aqui virou sobre culinária, é claro que o fundamental para um prato é o sabor, mas quando você vai a um restaurante, especialmente se for italiano, você espera também uma bela apresentação, né? E talvez seja aqui o ponto onde Mafia: The Old Country mais brilha. Há alguns detalhes nos gráficos, principalmente nos personagens, que não chegam a impressionar, é verdade, mas nos cenários…
O uso da Unreal Engine se provou super acertado, fazendo com que os jogadores tenham paisagens impressionantes. A Sicília hoje é um destino turístico requisitado e caro por suas belezas naturais, e o trabalho dos desenvolvedores para recriar a região e trazer todo o seu esplendor para o jogo merece elogios. É tudo lindo. Luzes, reflexos, detalhes.

A trilha sonora orquestrada, mesclada a canções folclóricas italianas, dá um peso extra à imersão, e a dublagem — tanto no original quanto nas versões localizadas — capta com precisão os sotaques e expressões da época. Para o Brasil, há legendas em menus no nosso idioma, mas não o áudio.
Agora que já falamos de ingredientes e apresentação, é hora do preparo, do gameplay. Mafia: The Old Country mescla furtividade, combates com armas de época, perseguições a cavalo, corridas de carro e, principalmente, duelos intensos com facas com uma abordagem bacana de Parry, Esquiva e Ataque.
O combate recebeu melhorias significativas, com um sistema de tiro mais responsivo e opções táticas que incentivam a furtividade, algo que dialoga bem com a temática de conspiração e honra mafiosa. As perseguições, agora realizadas com veículos da época, como carruagens motorizadas e motocicletas primitivas, são um charme à parte. No entanto, o que começa divertido e intenso, pode acabar ficando meio chatinho.

Especialmente porque as mecânicas de furtividade e combate não variam muito. As lutas com faca e as seções disfarçadas se tornam previsíveis e pouco desafiadoras com o tempo. Além disso, conforme dito anteriormente, Mafia: The Old Country abandona o modelo de mundo aberto de Mafia III, abraçando a estrutura mais clássica e linear do começo da franquia, e seu conteúdo extra, como os colecionáveis, parece mais “encher linguiça” do que algo realmente relevante.
Mesmo assim, o mundo é tão bem feito, que vale demais perder um tempinho com ele. Especialmente nos deslocamentos, que também são frequentes – e até tem opção de viagem rápida em alguns deles, mas por favor, não faça isso. Vale demais aproveitar a brisa siciliana, mesmo que virtualmente.
Outro detalhe legal fica por conta da personalização de Enzo. Você pode seguir o jogo apenas com os trajes designados da história, que vão sendo desbloqueados conforme você avança, ou então pode ir trocando de roupa na sua casa. É só usar o dinheiro que vai pegando ao derrotar inimigos e juntar para fazer essa customização. Vale para roupas, cabelo, barba, e até para seus carros, cavalos e armas.

Nos carros e armas, aliás, a variedade é grande, o que torna o gameplay super divertido e variado. Dá para pegar veículos mais pesados ou carros super rápidos, inclusive de corrida. Aliás, se você não for tão bom assim em jogos do gênero, fica o aviso: vai sofrer em alguns momentos. Assim como nas missões stealth mais avançadas. Agora, quando o fogo é liberado, meu amigo, tem escopeta, tem rifle para atirar de longe, tem revólver…
Claro, tudo com a tecnologia dos anos 1900-1910, o que deixa tudo ainda mais interessante, por sair um pouquinho do padrão que vemos nos jogos de aventura normalmente. Vale citar ainda que Enzo também tem amuletos, fazendo uma referência ao catolicismo da época, com contas que lhe dão boosts como, por exemplo, mais vida, mais velocidade e coisas do tipo.
A aposta da Hangar 13 e da 2K Games foi clara: visual bacana, jogabilidade simples, história amarradinha, duração mais curta e preço “mais baixo” (sim, a gente sabe que R$ 289,90 ainda é muito caro, mas é um valor menor do que os de lançamentos AAA mais longos atualmente). É um pratinho da nonna, sabe? Não é chique, mas é saboroso.
Mafia: The Old Country é uma carta de amor à narrativa cinematográfica de gênero mafioso em formato de videogame. Com tudo de positivo e negativo que isso pode ter. Ao mesmo tempo em que cria uma ambientação perfeita e traz uma narrativa bem encaixadinha, em um formato rápido e direto, ele também recorre a táticas batidas – seja no enredo, seja no gameplay.
Se você já viu algum filme ou série sobre a máfia italiana e já jogou algum Mafia, ou até mesmo outros jogos de ação nos últimos anos, provavelmente nada vai te surpreender em The Old Country. O que é diferente de dizer que nada vai lhe agradar. Afinal, mesmo com suas missões lineares e repetitivas, e uma história bastante lugar comum, ainda é uma bela experiência.
Mafia: The Old Country é não só um presente para os fãs de longa data da franquia, como também uma excelente porta de entrada para quem quiser se aventurar por este universo. Por isso, para fechar parafraseando o clichê dos clichês de filmes de mafiosos italianos, eu tenho uma proposta que você não pode recusar: jogue Mafia: The Old Country. Vale, sim, a pena.
Veredito
80
Desenvolvedor
2K Games
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1
Veredito
80
Jogo
MAFIA: The Old Country: vale a pena?