Jogo
Hell is Us
“Não chegue tão perto, está escuro aqui dentro. É onde meus demônios se escondem”. O que Imagine Dragons cantou, Hell is Us apresentou nos videogames. O game da Rogue Factor, publicado pela Nacon, mostra o resultado de ações demoníacas. Não estamos falando de monstros, mas sim, dos próprios terrores que os humanos podem causar.
O jogo de ação/aventura é uma constante metáfora sobre as consequências de atos violentos, sejam eles por ganância ou pelo simples prazer da superioridade. Não importa de onde vem, o ódio, a guerra e a morte resultam em mais do mesmo a tal ponto de não haver um vencedor, apenas destruição.
É uma jornada muito interessante, cheia de segredos e voltada para a exploração. O combate desempenha um papel importante na experiência, mas não se compara ao peso de vasculhar cada canto em busca de pistas, pedacinhos de um grande cabeça e itens colecionáveis que dão detalhes cada vez mais curiosos deste universo.
Em Hell is Us, o inferno não é sobre demônios, é sobre o inferno que só os humanos podem criar.
No universo de Hell is Us, acompanhamos a história de Remi, que viaja para Hadea, um país marcado pela guerra civil entre palomistas e sabinianos. Ele está em busca de sua família após ter sido mandado embora do país quando ainda era criança. Agora, adulto, está determinado a encontrar seus pais e entender por que foi exilado.
Conspirações, sobrevivência, grupos religiosos, fundamentalistas e exércitos violentos: adicione tudo isso à receita do drama familiar para formar uma história bem construída. Toda a trama conta com pontos interligados, e Remi logo percebe que está diante de muitas revelações para as quais não estava preparado.

Totalmente condizente com a proposta de uma história investigativa, Hell is Us aposta fortemente nesse quesito. O jogo não conta com um mapa ou marcadores que indiquem para onde o jogador deve ir. Cabe a ele coletar pistas e, por meio delas, descobrir novos lugares para obter peças que abrem portas ou encontrar respostas que apontem a direção correta.
O título exige atenção e tempo. Para avançar na história principal, é necessário ler vários documentos coletados ao longo da exploração para captar as mensagens subliminares que escondem senhas, caminhos ou a resolução de enigmas.
Falando em enigmas, espere uma grande quantidade. Desde coletar livros espalhados por estantes para descobrir datas históricas até observar torres distantes que indicam símbolos únicos. E isso não acontece apenas para obter recursos e equipamentos especiais: essas situações se repetem diversas vezes ao longo da campanha principal. Se você é do tipo que gosta de correr com tudo, pode se frustrar ao se perder do caminho principal.

Concluir a história principal e resolver metade dos mistérios investigativos levou cerca de 35 horas, mas para quem busca completar 100%, é necessário um total de 50 horas, considerando que nenhuma missão seja perdida.
Hadea apresenta uma grande variedade de locais para visitar, sendo alguns deles zonas abertas que permitem exploração livre, conforme a preferência do jogador. O que incentiva esse sentimento de curiosidade é o fato de que, no local A, o jogador coleta uma chave que só fará sentido no local B. Ao chegar lá, será preciso uma informação presente no ponto C. Ou seja, o tempo todo há detalhes que podem ser perdidos devido à enorme quantidade de conteúdo.

Sobre o combate de Hell is Us, é possível cravar: o jogo não é um soulslike. A jogabilidade é mais voltada para títulos como Star Wars JEDI Survivor. Ou seja, há um certo grau de desafio, mas que não se compara em nada com os jogos da FromSoftware.
Alguns pontos interessantes a se considerar: existem cerca de seis tipos de armas, que podem ser modificadas com Glifos que concedem atributos de Êxtase, Terror, Ira e Luto. Cada um desses atributos permite aplicar habilidades ativas ou passivas aos equipamentos, além de aprimorar características específicas.

Esqueça o sistema de nível de personagem e XP para aumentar estatísticas. A única mecânica de progressão está nas armas. Quanto mais elas são usadas, mais experiência acumulam e recebem melhorias automaticamente.
Todos esses detalhes reforçam que o combate fica em segundo plano. Há uma limitação na quantidade e na variedade de inimigos. Por exemplo, não existem chefes de tirar o fôlego. Existem adversários especiais que trazem uma dinâmica única para as lutas, mas esses momentos são extremamente raros. Para um jogo que constantemente surpreende, faltaram batalhas contra chefes para coroar a experiência com a cereja do bolo.

Além disso, mesmo jogando no Modo Difícil, não houve momentos realmente desafiadores. Há um certo desequilíbrio entre inimigos de Nível 2 e 3 (os mais altos), em que os primeiros são muito fáceis e os outros extremamente agressivos. No entanto, ao chegar nas regiões certas e usar as habilidades adequadas, os confrontos são superados com relativa facilidade — sem contar que morrer não gera nenhuma consequência, apenas a repetição do combate.
Essas situações são consideradas negativas porque poderiam contribuir ativamente para a narrativa do jogo. Como estamos falando de um inferno ativado em Hadea, os monstros que surgem poderiam seguir a lógica da gravidade dos sentimentos, proporcionando confrontos mais dinâmicos e menos mecânicos ou repetitivos.

Precisamos destacar o excelente trabalho da Rogue Factor ao entregar uma proposta tão robusta e criativa. O pequeno estúdio acertou em cheio na ambientação, na direção de arte, na trilha sonora e em toda a construção da experiência. Em muitos momentos, Hell is Us não diz nada, mas comunica muito por meio dos cenários, da atmosfera pesada e até dos horizontes marcados por sangue.
O visual é potencializado por uma trilha sonora que se encaixa perfeitamente em cada momento. Com instrumentos de sons sintéticos e graves que despertam sentimentos de curiosidade, terror e luto, as músicas acompanham todas as horas de exploração e despertam no jogador uma sensação constante de perigo em um lugar tomado por dor e angústia.

Existem alguns bugs que prejudicam um pouco o encanto. Por exemplo, nas áreas mais abertas, é comum notar o surgimento repentino de elementos do cenário, como arbustos e sombras. São situações que incomodam pouco diante das outras qualidades, mas que acontecem com frequência.
Hell is Us é, sem sombra de dúvidas, um dos jogos mais diferentes dos últimos tempos. Cheio de personalidade, não tem medo de arriscar em propostas novas e aposta em uma temática tensa muito bem conduzida. A ousadia do estúdio em entregar algo tão ambicioso poderia soar pretensiosa, mas é muito bem executada e vale a pena.
O título custa R$ 222,24, um preço mais atrativo em comparação com os grandes lançamentos AAA. O valor é condizente com a experiência oferecida, entregando mais de 30 horas de conteúdo em um universo único e com uma gameplay funcional.

Se você busca um jogo que não entrega nada de bandeja e gosta de sentir um grande investigador de puzzles, Hell is Us vale.
Veredito
87
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Hell is Us