Jogo
Hades II
Morte a Cronos! A declaração de Melinoe, filha do deus do submundo, não é somente o tema de Hades II, é também a máxima da Supergiant Games: vencer o tempo.
Cinco anos após a estreia do primeiro jogo no PS5, a sequência poderia simplesmente se apoiar no sucesso anterior e repetir a fórmula. Mas a Supergiant faz o oposto. Em vez de descansar no que já deu certo, traz ideias frescas, ajustes certeiros e entrega mais um grande projeto.
A nova protagonista é, ao mesmo tempo, diferente e familiar. Melinoe tem a agilidade de Zagreu, mas carrega habilidades mágicas que mudam bastante a dinâmica do combate. É gentil, mas também determinada em sua missão. O jogo soa conhecido para quem amou o original, porém se destaca pelo loop de gameplay viciante e pela forma como introduz novidades em um ritmo muito bem calculado.
Hades II é tudo o que os fãs gostariam de ver outra vez, mas com coragem suficiente para não ficar preso à zona de conforto. Mesmo que sua estrutura roguelite ainda afaste alguns jogadores, não há dúvida de que ele permanece entre os melhores do gênero.
Hades II coloca Melinoe no centro da jornada. Meia-irmã de Zagreu e filha de Hades, ela foi afastada do submundo após a vingança de Cronos. O deus do tempo destronou seu filho e mergulhou tudo no caos. Agora, Melinoe parte em busca de revanche, determinada a derrotá-lo e resgatar sua família.
Enquanto Zagreu queria escapar do submundo, Melinoe quer retomá-lo. Essa diferença de objetivo ajuda a definir bem sua personalidade. Ela não direciona suas frustrações para todos ao redor, como muitas vezes acontecia com seu meio-irmão, e concentra sua fúria em Cronos. Isso faz dela uma protagonista mais doce, carismática e fácil de acompanhar.

Mais uma vez, a Supergiant mostra como contar uma história de forma dinâmica, sem recorrer a blocos longos e cansativos de texto. Não há fraqueza no design deste jogo. Deuses, NPCs, criaturas e monstros surgem com artes feitas à mão de altíssimo nível.
A narrativa também avança por meio de diálogos desbloqueados aos poucos. A cada tentativa, nova área descoberta ou item obtido, surgem interações que aprofundam o universo de forma natural e fluida.

Ainda assim, por mais competente que seja, a história vive um pequeno problema: em alguns momentos, fica à sombra do primeiro jogo. A estrutura baseada em vingança, os paralelos entre personagens como Zagreu e Melinoe ou Hades e Cronos, além da forma como os segredos da campanha são revelados, passam uma leve sensação de repetição. Não chega a incomodar de verdade, mas existe.
Hades II abraça totalmente sua identidade roguelite. Morrer faz parte da progressão. A cada tentativa, o jogador atravessa quatro regiões até alcançar o objetivo final. As três primeiras contam com chefes próprios, enquanto a última reserva Cronos como o grande desafio. Ao cair, tudo recomeça do início.
Num primeiro momento, essa lógica pode soar desmotivadora. Só que o jogo trabalha muito bem essa sensação. Em Hades II, cada morte representa algum tipo de avanço. A cada run, o jogador coleta recursos, experiência e itens importantes para fortalecer Melinoe.

Esses materiais são levados ao hub central e servem para desbloquear armas, melhorias de atributos, companheiros e novas áreas. Aqui está um dos maiores acertos da sequência. A sensação de progresso parece até mais forte do que no primeiro título.
Morrer deixa de ser punição e vira parte essencial da evolução. Não é raro fazer runs focadas apenas em coletar determinados recursos ou testar builds diferentes. Essa variedade amplia bastante as possibilidades de combate e estratégia.

Os combates são desafiadores. Os chefões chamam atenção tanto pelo espetáculo visual quanto pela variedade de ataques, enquanto os inimigos comuns adotam comportamentos mais agressivos e exigem atenção constante. Cada sala pede leitura rápida e boa gestão de recursos.
Também vale destacar os eventos aleatórios que surgem ao longo da jornada. Sejam encontros com aliados, sejam aparições hostis, sempre existe a chance de algo inesperado mudar completamente a estratégia da run. Essa imprevisibilidade é bem dosada e ajuda bastante a manter a sensação de novidade.

No combate, a Supergiant expande as possibilidades com novos deuses, bênçãos e mecânicas, como o Poder da Lua. Melinoe usa magia, e isso amplia as opções ofensivas e permite estilos de jogo bem distintos.
Os comandos no DualSense estão mais confortáveis, e a fluidez da movimentação facilita a adaptação às mecânicas. O título também aproveita a resposta tátil e os gatilhos adaptáveis do controle.

O loop de gameplay preserva a essência do primeiro jogo. É possível concluir uma run em pouco tempo, mas a experiência sempre incentiva o jogador a seguir em frente, seja para desbloquear novos conteúdos, buscar o final verdadeiro ou experimentar combinações inéditas.
O tempo necessário para chegar ao final verdadeiro gira em torno de 30 horas, podendo aumentar bastante para quem quiser completar tudo. Ainda assim, a progressão é tão envolvente que as horas passam quase sem serem percebidas.

As regiões exploradas por Melinoe também merecem destaque. Cada área tem identidade visual marcante, cenários muito bem construídos e trilhas que reforçam a atmosfera.
Os Campos de Luto, por exemplo, oferecem um espaço mais aberto, com maior liberdade de exploração e atividades paralelas. É ali, inclusive, que acontece uma das melhores batalhas contra chefes de todo o jogo.

Além disso, há caminhos alternativos que levam ao Olimpo e mudam a dinâmica da jornada. É uma novidade importante para a franquia e oferece outra forma de lidar com os acontecimentos da história.
A trilha sonora de Darren Korb reforça ainda mais a experiência. Com forte presença de guitarras e elementos de rock, a música transmite ação, tensão e personalidade. Em vários momentos, os arranjos evocam a sensação de um relógio correndo, como se a presença de Cronos estivesse sempre pressionando a jornada. Há muita identidade nisso.

Se você gosta de roguelite, Hades II é praticamente obrigatório. E mesmo para quem não tem tanta familiaridade com o gênero, ele funciona muito bem como porta de entrada.
O jogo não subestima veteranos, mas também não afasta iniciantes. Poucos conseguem equilibrar dificuldade, progressão e diversão com tanta naturalidade.
Com boa história, personagens marcantes e um gameplay viciante, Hades II mostra que os videogames não são derrotados pelo tempo. Eles evoluem com ele. Morte a Cronos.
Veredito
95
Desenvolvedor
Supergiant Games
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1
Veredito
95
Jogo
Hades II