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Final Fantasy VII Remake: vale a pena?

Em tempos onde remasters, remakes, reimaginação ou renascimento estão em evidência, a Square Enix "dá aula" de como fazer

por Daniel dos Reis
Final Fantasy VII Remake: vale a pena?

E se Leonardo da Vinci tentasse pintar a Mona Lisa de novo? Dificilmente o resultado seria tão impactante na história, certo? Afinal, a criação de uma obra-prima não envolve somente habilidades técnicas; há todo um conjunto de sentimentos, sensações e situações que acabam influenciando nos traços e, claro, no resultado. Isso nos remete a Final Fantasy VII, o apogeu da Square Enix.

Recriar um jogo tão querido e importante na indústria não é uma tarefa simples. Refazer com gráficos mais bonitos, só por refazer, seria um desperdício de oportunidade. Promover mudanças em pontos sensíveis seria um “tiro no pé”. Como proceder então? Bem, felizmente, o estúdio conseguiu equilibrar muito bem todas as expectativas.

FFVII Remake é uma deliciosa experiência. Visual de cair o queixo, jogabilidade moderna e estratégica, narrativa aprofundada e uma sonoplastia irretocável. Se você é fã, não precisa de muito mais argumentos. Só vai. Já os mais céticos terão uma oportunidade singular para descobrir o motivo de Final Fantasy VII ser a Mona Lisa da Square Enix.

Fantasia

Ainda que seja uma história típica de Final Fantasy, um personagem com penteado estiloso enfrentando uma situação de fim do mundo, o sétimo game na cronologia entrega uma trama bem profunda, complexa e com pontos que só se conectam com o desenrolar dos fatos.

Sem muita explicação, você assume o papel de Cloud Strife, um ex-SOLDIER, agora mercenário, que se junta ao grupo eco-terrorista AVALANCHE por dinheiro. Sua participação se limita ao serviço de explodir um reator de energia da companhia Shinra.

No começo, o loirinho se limita apenas a participar como um mercenário, mas alguns eventos o levam a continuar ajudando o grupo em outras ações. O objetivo da AVALANCHE é tentar frear as atuações da Shinra, um gigantesco conglomerado de iniciativas que domina todo o planeta, sugando toda sua energia Mako.

FINAL FANTASY VII REMAKE

O bando, liderado por Barret, acredita que o uso irrestrito desta energia acaba também consumindo a energia vital do mundo de Gaia e empobrecendo a sociedade, enquanto a empresa fica cada vez mais rica e poderosa.

A magia está em como tudo é contado e em como os personagens se conectam. Se em 1997, quando os personagens não tinham dublagem e toda a trama era por texto, já era incrível, agora está ainda melhor. Ficam evidentes a indiferença inicial de Cloud com a AVALANCHE, o temperamento explosivo de Barret, a doçura de Aerith, a determinação de Tifa e a sutileza de algumas situações divertidas.

Midgar também está trabalhada em seus mínimos detalhes, com favelas repletas de fragilidades, comerciantes, áreas icônicas como a Igreja, os túneis, bar de Tifa, os setores, áreas dos reatores e mais, amplificados. Os fãs reconhecerão, imediatamente, alguns dos locais – e não se surpreenda, caso seja um deles, a soltar um “uau” espontâneo.

Está (quase) tudo muito bonito. Quase porque há um problema de texturas. NPCs e partes dos cenários muitas vezes aparecem com renderizações bem feias. Chega a ser gritante a diferença em determinados momentos. Também é preciso destacar a formidável trilha sonora. Cada local conta com um som ambiente bem agradável. Em certos momentos, você vai simplesmente ficar parado, apenas ouvindo a batida, principalmente o tema de Aerith.

Cinquenta horas

A Square Enix não oferece só um remake. É uma imersão profunda. Tudo potencializado por gráficos de saltar os olhos, uma trilha sonora de vibrar os ouvidos e a exploração de outros personagens. A expansão justifica os dois pontos mais criticados ao longo dos anos: o tempo até o lançamento (quase cinco anos) e o formato episódico.

É uma narrativa realmente grande, com cerca de 50 horas se você optar por experimentar tudo que o game oferece.

E isso nos leva as discussões.

Existe uma série de missões secundárias que podem ser feitas e acabam até potencializando alguns elementos. O principal destaque fica por conta daquelas onde você acaba conhecendo melhor os demais personagens, fortalecendo vínculos, encaixando um pouco melhor o quebra-cabeça do enredo. Jessie, Biggs e Wedge deixam de ser meros coadjuvantes e passam a ter participações relevantes. É impossível, por exemplo, não achar graça do atiramento de Jessie sobre Cloud, do centrismo de Biggs e da necessidade de se provar de Wedge.

Mas há um contraponto importante. Várias das sidequests são enfadonhas e inflam artificialmente as horas de gameplay. Ainda que muitas ofereçam itens importantes, é desgastante se ver obrigado a cumprir tarefas que você realmente não quer.

E no momento mais importante… O jogo acaba.

Finaliza com aquela sensação de que este primeiro capítulo (Midgar) é apenas uma gigantesca introdução para uma trama absolutamente épica que ainda está por vir. Fica aquela sensação de final de temporada de um seriado de TV. É um misto de satisfação com expectativa.

Para os que gostam de começo, meio e fim, pode ser bem frustrante ter que esperar mais tempo – não sabemos quanto – para continuar o game. Mas para quem se sente à vontade com isso, a jornada é redondinha.

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Visual dos personagens é de cair o queixo.

Me dê a espada!

Quando Cloud saca a Buster Sword e você assume o controle da luta, um sorriso invade o rosto. Final Fantasy VII Remake tem um sistema de batalha muitíssimo equilibrado, que mescla a dinâmica dos jogos modernos com nuances clássicas. No começo pode até parecer só um hack and slash, mas o tempo e a experiência vão revelar o quão refinadas as mecânicas estão.

Nas lutas com Cloud, você é capaz de atacar diretamente através de golpes mais diretos, variando combinações mais velozes e outras mais lentas, porém fortes. Já Barret e Aerith podem ser úteis em investidas mais à distância e Tifa mais próximas. Cada personagem tem uma característica particular.

Você até pode querer partir para cima dos oponentes sem nenhum plano, apenas pressionado quadrado e vencendo. Mas é bom avisar: só funciona em pequenos confrontos, mas fracassa miseravelmente nos demais casos.

As coisas ficam realmente interessantes quando se entende a dinâmica. O jogo combina velocidade com inteligência ao permitir que você acesse um menu – que deixa as coisas mais lentas – para usar itens, selecionar ataques e magias e trocar personagens. É a ATB (Ative Time Battle), quando ela carrega, você pode realizar algo com seu personagem, ou comandar uma ação indireta de outro. Tudo muito rápido.

Aliado a isso, temos a capacidade de trocar personagens. É quase como um jogo de tabuleiro em três dimensões, onde você nunca espera sua vez. Com Cloud, ataque ferozmente o oponente com golpes de habilidades, mude para Barret e ofereça suporte de fogo para evitar que o primeiro seja um alvo fácil, volte para Aerith e ofereça elementos mágicos para curar sua equipe e desviar novamente a atenção.

Final Fantasy VII Remake é muito versátil nas lutas. Muito mesmo. Cada personagem é realmente útil. Tifa, por exemplo, consegue atordoar adversários mais rapidamente, abrindo espaço para investidas de outros. Com o tempo você vai conseguir manobrar tão bem nas trocas, ataques, itens e magias, que até vai se perguntar como conseguiu viver sem isso até hoje. É excepcional.

E se a batalha se estender ou você estiver em apuros, uma invocação feroz pode vir em seu auxílio. Mas ela não aparece a qualquer momento. Uma barrinha de tempo surge na tela, e você é capaz de convocar o summon, que fica por um período de tempo, para o confronto. Ao contrário do game de 1997, no remake as invocações lutam lado a lado com jogador.

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Convoque uma criatura para lhe ajudar na luta.

É um campo de batalha de alta intensidade, onde uma estratégia eficaz é a única capaz de fazer com que Barret cante a música da vitória de todos os Final Fantasy. Há uma necessidade intrínseca em estudar os inimigos, buscando estratégias para vencê-los. Não existe uma única forma para todos. É preciso descobrir como quebrar resistências e explorar fraquezas.

Lembra do original? Era mais cadenciado, com tempo e recursos para você pensar em uma estratégia durante o combate. Neste, você precisa se preparar com mais frequência. As configurações de armas ainda usam o esquema de equipar materias, mas a quantidade de slots dependem do tipo de arma e acessórios que você equipa nos personagens, experiência, etc.

O conceito é basicamente o mesmo: você encontra – ou compra – materia de cura, equipa no seu personagem e isso fará com que ele possa lançar magias de cura. O mesmo vale para algumas habilidades. Determinadas matérias oferecem diferentes habilidades. Você molda e cria um estilo para seu trio ao combiná-las.

A mesma ideia se aplica aos summons. Você precisa equipar a matéria para o personagem ser capaz de fazer uma convocação. Somente Ifrit é “dado” no jogo. Nas demais, o jogador precisa ou encontrar no cenário (somente uma invocação), ou cumprindo desafios de um garotinho chamado Chadley (cinco invocações) ou para aqueles que compraram em pré-venda (três invocações). E como o jogo se passa somente em Midgar, não espere encontrar summons que no original só eram possíveis de se encontrar em outros lugares.

Há poucos deslizes na jogabilidade. Por exemplo: a câmera se posiciona mal em alguns momentos; às vezes você trava o alvo, e quando começar a golpear, seu herói vira para o outro lado, fazendo você perder o golpe. E é bem triste quando você está preparando um limit break para encerrar a luta com estilo e acaba soltando o golpe pro lado errado, tendo que esperar sua barra de limit voltar a encher.

Final Fantasy

Em tempos onde remasters, remakes, reimaginação ou renascimento estão em evidência, a Square Enix conseguiu unir todas estas palavrinhas em torno da sua Mona Lisa com maestria.

Longe de ser uma história de um grupo de amigos contra um sistema opressor, o jogo entrega uma história muito mais pessoal. Há profundidade nas personalidades. Em todos há uma essência quase palpável e evolutiva que só pode ser notada nesta nova versão, com os recursos da oitava geração.

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Aerith faz um convite especial.

Há, sim, alguns pontos que acabaram ficando sem um refino. Problemas visuais de renderizações de cenários e NPCs, missões paralelas sem muita criatividade e até uma excessiva linearidade. Final Fantasy VII Remake é um jogo de “corredor”. Você não tem a oportunidade de explorar abertamente. Mas este trecho de Midgar já era assim no game de 1997 e isso não chega a ser um ponto que desmereça o game.

A avaliação é extremamente positiva dessa grande reintrodução de FFVII. Agora, fica só uma (enorme) expectativa pelo capítulo 2.

Veredito

Final Fantasy VII Remake
Final Fantasy VII Remake

Sistema: PlayStation 4

Desenvolvedor: Square Enix

Jogadores: 1

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90 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Narrativa ampliada
  • Lindíssimo visual dos personagens
  • Moderno sistema de combate
  • Sonoplastia arrepiante
  • Longevidade
Desvantagens
  • Algumas texturas de baixa qualidade
  • Erros de câmera
  • Sidequest enfadonhas