Jogo
Call of Duty Black Ops 6
Eu vejo o futuro repetir o passado. Na verdade, o presente repetir o passado, que nem é tão distante assim. Voltemos a 2023, quando a Activision decidiu lançar Call of Duty Modern Warfare III, logo em sequência do Modern Warfare II.
Na época, as críticas foram muito direcionadas ao conceito de que o jogo era, na verdade, um DLC do jogo de 2022. Ele repetia muito do que vimos e tentava contar sua história através de missões mais abertas e menos guiadas. O resultado foi desastroso. Sua nota no Metacritic é de 56 pontos de média. Uma das piores de toda a franquia.
Apesar do jogo ter recebido um bom tratamento pós-lançamento, com muitos conteúdos multiplayer, a estratégia não deu muito certo. Àquela altura, imaginávamos que a Activision teria aprendido boas lições e não voltaria a cometer os mesmos erros.
Agora voltemos para 2025. Sim, eles foram capazes de cometer não só os mesmos, como novos. Pelo menos, isso é louvável.
Capitão Nascimento certamente diria: tira esse nome Black Ops! Um fã da saga vai se decepcionar com Black Ops 7, com os rumos que a história tomou.
O que antes era uma trama que envolvia conspirações, espionagem, operações secretas e inteligência, hoje é um amontoado de coisas absolutamente sem respeito ao legado construído desde o primeiro, de 2010.
A campanha coloca o jogador no controle de David Mason, filho de Alex Mason, liderando a equipe Specter One em uma missão que inicia com o objetivo de investigar e entender o ressurgimento de Raul Menendez, que deu as caras em um vídeo super esquisito.

Na missão, o grupo de Mason é exposto a uma toxina que deveria tê-los matado, mas por alguma razão desconhecida desencadeia alucinações e confusões mentais… compartilhadas. Ou seja, todo o grupo vê as mesmas fantasias, sente os mesmos pesadelos e revive lembranças.
Este é o gancho que tenta te trazer para dentro da trama. O objetivo parece ser bastante claro: transformar memórias em gatilhos para confrontos que acontecem interna e externamente. E é exatamente nisso que o jogo falha colossalmente.
Na busca por informações, os jogadores são lançados em enfrentamentos contra a Guilda e você pensa: Guilda e Menendez… certo? Errado! O vilão icônico de Black Ops 1 e 2 é apenas, vejam só, uma ilusão. Embora tenha sido explorado como principal ponto de marketing do jogo, seu contato com ele é limitado a poucos encontros, incluindo uma boss fight onde caem espadas do céu… uma viagem sem pé nem cabeça.
Na verdade, a campanha em si parece mais um surto coletivo, com poucas ideias boas. Em boa parte do tempo, você é jogado em Avalon, um grande mapa aberto, e deve seguir até um determinado ponto, assegurar a área, enfrentar uma horda de robôs e seguir para o próximo objetivo.
O que existe aqui é uma falsa sensação de liberdade, com um gigantesco cenário sempre muito vigiado por inimigos, loots e quase nada a ser aproveitado. Não há histórias paralelas, descobertas, razões para exploração. Pegue um mapa de Far Cry, retire suas belezas naturais, coloque bases militares e pronto. É isso.

As melhores missões são aquelas que se parecem mais com CoD, um pouco mais fechadas, repletas de ação, cenários menores, porém mais condizentes. Quando o jogo tenta sair desse roteiro, ele se perde em sua própria megalomania.
E o que era pra ser a parte interessante, as alucinações, são as piores partes. Elas viram desculpas para que tudo aconteça sem consequência, deixando a impressão de que ela, a história, não sai do lugar. São lutas contra pesadelos artificiais que não existem. Que valor isso tem para uma trama?
Black Ops sempre tratou de conflito entre controle e verdade e não nada há disso neste sétimo capítulo. Os personagens são apenas reduzidos a referências ao Mason pai, como se a única função fosse lembrar como o jogo era deveras melhor.
E no fim, após batalhas contra plantas gigantes, outras aberrações anormais, facas voando como um scorestreak, o que sobra é apenas o nome.
Ponto positivo para a dublagem e localização brasileira, que conta com nomes bem legais que, apesar do esforço, não conseguem salvar o que foi entregue, e para a conquista de XP global. Se tiver a coragem de jogar a campanha, a experiência acumulada poderá ser aproveitada nos outros modos.

A campanha pode ser jogada inteiramente em coop para até quatro jogadores, com a dificuldade se ajustando dinamicamente (não dá para selecionar manualmente). Ao concluir, habilita-se o Endgame, uma experiência rejogável, permitindo que os jogadores sobrevivam em condições muito mais difíceis. Após uma atualização, este modo ficou habilitado mesmo para aqueles que não concluíram a história.
Bom, para muita gente, a campanha nunca foi o ponto principal de Call of Duty. Então, todas as críticas acima passarão batido. O que importa mesmo é o multijogador.
Felizmente, ao contrário da narrativa, aqui temos boas notícias, ainda que não agrade a todos. Se você, assim como eu, gostou do BO6, tende a gostar bastante dos jogos coletivos de BO7. As coisas aqui estão bastante familiares, com ajustes finos importantes.
O Omnimovement está de volta, agora com a adição de que se pode saltar pelas paredes para alcançar lugares mais altos rapidamente ou simplesmente escapar de confrontos desfavoráveis. Embora tenhamos traumas de saltos duplos ou de movimentos super futuristas vistos em Infinite Warfare ou Black Ops 4, as coisas aqui são mais pés no chão.

Talvez o maior impacto seja na retirada da Corrida Tática, que agora é uma vantagem e não está disponível por padrão para todos. Da mesma forma, não dá para mirar com a mira telescópica ao deslizar, o que exige a vantagem Destreza. As partidas são rápidas, dinâmicas e muito aceleradas.
De modo geral, os menus, equipamentos, attachments, vantagens, coringas, atualização de campo etc. funcionam de forma muito parecida com Black Ops 6.
A novidade é um sistema de Overclock, que permite aprimoramentos em melhorias de campo e até série de baixas. Em via de regra, os equipamentos possuem dois níveis de Overclock.
No total, são 18 mapas logo no lançamento, sendo três deles vindos diretamente de outros jogos da franquia: Express, Raid e o icônico Hijacked.
Um dos pontos mais controversos dos últimos lançamentos de Call of Duty é o tão famigerado Skill Based Matchmaking. Introduzido no Modern Warfare de 2019, a ideia era bem simples: colocar jogadores com habilidades parecidas na mesma sala. Então, se você é um jogador hardcore, muito habilidoso, o jogo te aloca em partidas com outros players tão bons quanto você.
A ideia era ter partidas mais equilibradas, competitivas e incentivar a competição.
Porém, a realidade acabou se mostrando outra. Nunca ficou exatamente claro quais são as métricas usadas para definir esse “nível de habilidades”. São as vitórias? A precisão? K/D ou, quem sabe, quem conquista mais objetivos?
No fim das contas, cada partida era um Deus nos acuda, com partidas extremamente competitivas e estressantes, sem tempo para respiros ou simplesmente algo casual. É sempre faca na caveira. E em jogos como o Black Ops 6, isso se acentuava dada a velocidade alucinante do jogo.

E ainda tinha um porém. Os lobbies eram desfeitos a cada partida. Então, se você conseguisse um ótimo desempenho em uma partida, a seguinte seria muito mais difícil. Você estava sendo punido por ser bom.
Mas então a Activision deu um cavalo de pau e resolveu mudar isso, bem no meio da versão beta. A alegação oficial era que os desenvolvedores estavam ouvindo o feedback dos jogadores e os anseios da comunidade. Mas ficou bem evidente que isso foi uma resposta ao avassalador lançamento de Battlefield 6.
Na versão final de Black Ops 7, por padrão, o SBMM foi reduzido, deixando as partidas abertas, sem levar (tanto) em conta as habilidades. Uma volta às origens. Mas os que preferem com SBMM ainda têm essa opção. A medida agradou bastante e fez muita gente olhar este BO7 com outros olhos.
E agora vem o plot que eu realmente não esperava. Eu nunca fui um bom jogador, mas normalmente ficava no meio da tabela, no 3º lugar do time, às vezes pegava partidas melhores. Mas desde a introdução do SBMM fui relegado, na maioria das vezes, às últimas posições.
Na época, acreditei que estava na hora de aposentar. CoD já não era mais pra mim. Afinal, ninguém quer gastar 200 horas em um jogo ficando sempre em último.
Esta mudança no BO7 me empolgou. Finalmente voltaria a ter partidas melhores e o SBMM deixaria de ser o vilão. E eis que… quase nada mudou.
Nas partidas abertas, com nivelamento reduzido, continuei figurando nas mesmas péssimas posições.
Porém, agora, com o SBMM ligado, eu consigo ter novamente mais momentos de glória. Curioso, não? E tenho me divertido bastante e evoluindo em desbloqueio de armas e recursos bem mais rápido que no passado.
BO7 também marca o retorno do modo Zombies, maior, amplo e novamente cheio de segredinhos. O mapa de lançamento, Ashes of the Damned, é o maior mapa de rodadas já feito para a série, com diversas zonas e muitas conexões entre as áreas, com fortes inspirações na TranZit de Black Ops II.
Zombies expande bastante o que vimos no jogo de 2024, embora conte com os mesmos personagens, perks, melhorias de campo e mods.
A ideia básica é sobreviver em hordas quase intermináveis de aberrações, com várias delas muito desafiadoras, praticamente impossíveis de serem vencidas solo. A propósito, Zombies é uma experiência muito mais divertida quando jogada com os amigos.

A novidade aqui é o retorno do Dead Ops, aquele modo onde a visão é de cima. Seu objetivo é o mesmo: sobreviver. Ele funciona quase como um alívio despretensioso, mas sem ambições de te prender por longas horas ou ser o motivo principal para reunião dos amigos.
Para este último caso, o Zombies tradicional cumpre excelentemente bem este papel. Na verdade, para muitos, ele é o principal motivo de compra do jogo.
Muita gente vai chegar aqui e dizer um contundente “não”. Assim como EA FC, NBA e F1, Call of Duty carrega o “problema” de ser anual e isso atrai por si só muito hate. Os argumentos, geralmente, são “não inova”, “é sempre o mesmo”, “CoD já era” etc.
Nenhum desses pontos deve ser invalidado. Call of Duty Black Ops 7 chega com preço de um jogo premium, oferecendo uma experiência muito parecida com o BO6 do ano passado a nível de multiplayer e Zombies.
Claro, as melhorias dão um up. E sim, nestes dois aspectos, ele é melhor que o jogo do ano passado. É mais refinado, tem bons mapas, as mecânicas de aim assist e os balanceamentos estão mais consistentes. O Zombies ainda é bastante divertido, talvez ele por si só possa ser a justificativa para a compra.
Contudo, não há nada muito novo aqui. É um refinamento. Talvez fosse melhor vir como um DLC ou, ao menos, pela metade do preço.
Já a campanha é péssima em praticamente todos os sentidos. Sem roteiro, sem alma, não avança em absolutamente nada na narrativa de Black Ops. Pelo contrário, faz exatamente o oposto, mancha a narrativa com ideias desconexas, muito mal implementadas e vazias.
Não adianta criar um mapa aberto, jogar quatro jogadores lá e só pedir para eles irem do ponto A ao B e atirar em robôs.
E é claro, estamos falando de Call of Duty. Espere por pacotes caríssimos, skins extremamente viajadas, colaborações terríveis que irão virar meme e um modelo agressivo de monetização.
Veredito
55
Desenvolvedor
Treyarch
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
Até 4 jogadores
Veredito
55
Jogo
Call of Duty Black Ops 6