Jogo
Borderlands 4
Borderlands 4 é o tipo de sequência que tenta dizer ao mundo que cresceu. Ela chega com sistemas retrabalhados, mapas sem loadings, gunplay afiada e a promessa de uma nova era para os caça-arcas. A Gearbox quer provar que aprendeu com os excessos do passado, que entendeu o que os fãs pedem, e que sabe onde precisa evoluir.
Mas crescer também significa correr riscos. E nesse processo, Borderlands 4 faz muita coisa certa, mas também tropeça nas próprias ambições. É um jogo que diverte, impressiona e até emociona em certos momentos, mas que ainda não consegue escapar por completo dos vícios antigos da franquia.
A ambientação é um dos grandes acertos. O planeta Kairós mistura biomas exuberantes com decadência sci-fi, entregando regiões distintas em tom, arquitetura e design. E o melhor: pela primeira vez na franquia, não há telas de carregamento entre zonas. Você pode cruzar vastas áreas sem interrupções, o que reforça a sensação de mundo contínuo e vivo.
Só que essa fluidez tem um custo. Em sessões online, especialmente em grupos maiores, o desempenho sofre. A taxa de quadros cai de forma perceptível, prejudicando a ação em momentos cruciais. Em alguns trechos, bugs de renderização fazem inimigos surgirem sem barra de vida. Houve até um crash completo durante a jogatina, o que levanta um sinal de alerta para a estabilidade geral do jogo.
O que salva é o combate. Após uma atualização importante, a gunplay recebeu melhorias notáveis. Os disparos têm peso, os hitmarkers ajudam no feedback visual e o DualSense no PS5 intensifica a experiência com seus gatilhos adaptáveis. Ainda assim, seria ótimo se esse combate tão bem ajustado não precisasse lutar contra os soluços da engine.
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A franquia sempre se orgulhou de suas “bilhões de armas”, mas no quarto capítulo, esse número soa mais como um slogan do que como uma realidade tangível. Do nível 0 ao 50, muitos armamentos de uma mesma fabricante se comportam de forma quase idêntica. Isso traz identidade e um estilo de jogo para qual das grandes empresas você escolheu pra te acompanhar em Kairós, mas foge da variedade no decorrer da jornada.
Faltam as armas que surpreendem. Onde estão aquelas pistolas falantes, escopetas com comportamento absurdo, lança-chamas que contam piadas? Elas existem, mas são raras. A impressão é que a Gearbox quis valorizar demais o loot lendário, tornando tudo o que vem antes repetitivo demais. Quando você finalmente pega uma arma exótica, o impacto é alto. Mas o caminho até lá já cansou.
A curva de obsolescência das armas está melhor do que em The Pre-Sequel, mas ainda não atinge o equilíbrio de Borderlands 3, que permitia mais tempo de uso entre os upgrades.
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Os caça-arcas dessa vez falam mais, interagem mais e se envolvem melhor na narrativa. Essa mudança ajuda a criar personalidade. Personagens como Vex e Rafa têm momentos engraçados, enquanto Amon entrega frases duras que funcionam dentro de sua proposta. Harlowe com sua vibe rebelde, também tem destaque. Mas nenhum deles é tão profundo a ponto de gerar real conexão emocional. Eles são mais carismáticos, sim, mas ainda carecem de histórias que se desenvolvam ao longo da jornada.
Os destaques da campanha ficam com os líderes aliados de cada sub-região do planeta: Rush, que se impõe como líder nato da resistência, remetendo diretamente a Roland dos primeiros jogos, carregando um pouco do peso emocional necessário para fazer o jogador se importar. Zane retorna, e sua dinâmica com Levaine é surpreendentemente boa, mas vale mencionar que essa relação só brilha se o jogador mergulhar no conteúdo opcional. Nas Cordilheiras Terminus, temos o rebelde Calder também bem escrito e com impacto no roteiro. Moxxi e seu bar voltam como o melhor ponto de parada para ajustar o inventário e respirar um pouco. E, por fim, e para alguns menos importante, o que dizer do Claptrap? O mascote da franquia aparece de novo para sustentar a máxima de “ame ou o odeie”, com destaque para as suas missões que são extremamente divertidas.
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Observando a equipe de vilões, que também foi dividida por setores do mapa, Callis é a mais interessante com algumas reviravoltas na jornada. Vil Lictor e suas pesquisas, segurando os spoilers, também têm impacto significativo no andar do jogo. Já Solaris apenas apareceu com frases prontas e não tomou muita atenção. Agora, o vilão principal, o Senhor do Tempo, é funcional mas pouco memorável. A decisão de dividir a campanha em regiões com mini-antagonistas faz sentido narrativo, mas fragmenta a ameaça principal. Isso tira peso da figura central e reforça a sensação de que estamos enfrentando peças isoladas de um tabuleiro, e não uma força única e opressiva como foi Handsome Jack.
A missão principal de Borderlands 4 sofre com ritmo irregular. Mesmo com boas ideias, ela se perde entre regiões, bosses e subtramas. Mas quando o jogador se permite desviar um pouco do caminho e explorar as sidequests, o jogo ganha vida de verdade.
Missões como a da privada-robô e a das máquinas de venda conscientes (sim, acredite) são puro Borderlands. São absurdas, engraçadas e criativas. Fazem rir, pensar e atiram o jogador para dentro do mundo com mais força do que muitos momentos da história principal.
Essas missões elevam o valor da exploração, mas também expõem o contraste com o conteúdo mais genérico. Fora dessas exceções, a estrutura de mundo aberto recorre a clichês como capturar torres, limpar áreas e abrir baús. Não compromete, mas não empolga.
Pelo menos o novo sistema de locomoção, que substitui o Catch-a-Ride clássico, é excelente. A moto flutuante responde bem, tem opções de customização e torna a travessia muito mais prática.
![[Review] Borderlands 4: vale a pena? 5 1](https://meups.com.br/wp-content/uploads/2025/10/borderlands4.jpg)
Um dos pontos mais elogiáveis do jogo está no modo cooperativo. Agora é possível jogar com amigos de níveis diferentes sem que a experiência se torne desbalanceada. Quem está no nível 30 não se sente inútil ao lado de um jogador nível 50, e vice-versa. Isso incentiva grupos mais diversos e torna o matchmaking menos frustrante.
As árvores de habilidade estão bem construídas. Todas as ramificações oferecem vantagens reais e viáveis. Não há uma build “certa” para cada personagem, o que favorece a experimentação e respeita diferentes estilos de jogo.
Na qualidade de vida, há decisões acertadas. Marcar itens como lixo direto ao pegá-los é simples e útil. Comparar armas no chão com seu loadout atual também. Mas há falhas irritantes. A ausência de minimapa prejudica a navegação, e os menus reiniciando suas configurações a cada fechamento é um erro primário que não deveria mais existir em um jogo desse porte.
A música de Borderlands 4 surpreende positivamente. É a primeira vez desde Borderlands 2 que a trilha realmente se destaca, fazendo-nos colocar em playlists pessoais. Acompanha muito bem o ritmo do combate, principalmente com arenas intermináveis ou as boss fights. As cutscenes receberam sua parcela de atenção e apresentam sequências cinematográficas interessantes e coesas.
Para os platinadores, a lista de troféus é inteligente. Ela incentiva a explorar, repetir missões e testar todos os personagens. Isso aumenta bastante o fator replay, que foi inteligentemente explorado com a opção de revisitar missões já realizadas, e valoriza o conteúdo que nem sempre seria visitado por jogadores mais apressados. Quem quiser platinar Borderlands 4 vai precisar explorar tudo, mas sem cair em tarefas maçantes ou missões desnecessárias. É um equilíbrio bem-vindo.
![[Review] Borderlands 4: vale a pena? 6 2](https://meups.com.br/wp-content/uploads/2025/10/borderlands3.jpg)
Borderlands 4 é, acima de tudo, um jogo de transição. Ele aponta para um futuro promissor da franquia, mas ainda não dá o passo definitivo. Ele acerta na gunplay, na cooperação online e no design das sidequests. Mas tropeça em problemas técnicos, decisões de interface e uma campanha que não consegue carregar o peso do que veio antes.
Ainda assim, é uma experiência divertida, barulhenta e cheia de momentos bacanas. Para os fãs, é uma aventura que merece ser vivida. Para os novatos, é uma porta de entrada sólida, mesmo com alguns estalos nas dobradiças, mas talvez o preço inicial na PS Store assuste um pouco.
O caos continua, mas agora precisa encontrar uma nova direção.
Veredito
80
Desenvolvedor
Gearbox
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1 - 2
Veredito
80
Jogo
Borderlands 4