Jogo
Wuchang: Fallen Feathers
“Lá vem mais um soulslike?!”. Aposto que essa frase já passou pela sua cabeça. Com tantos jogos tentando copiar a fórmula da FromSoftware, é normal torcer o nariz quando aparece mais um na fila. Mas Wuchang: Fallen Feathers não chega só pra encher catálogo. O game da Leenzee tem suas próprias ideias e, mesmo tropeçando aqui e ali, consegue entregar uma experiência que vale a pena.
Ele é mais ágil, acrobático e direto no combate. Não tem tanta densidade quanto um Elden Ring ou Bloodborne, mas também não tenta ser uma cópia descarada. Curiosamente, o que funciona melhor são justamente as mecânicas originais. Quando tenta imitar os clássicos, Wuchang acaba mostrando que ainda está um degrau abaixo. Ainda assim, ele encontra seu espaço. Não é um novo marco do gênero, mas se destaca o suficiente pra não virar só mais um entre tantos.
No fim, talvez a maior vitória de Wuchang: Fallen Feathers seja essa: sobreviver no mar dos soulslikes sem ser engolido pela maré.
Wuchang: Fallen Feathers aposta no modelo de enredo conhecido pelos fãs de soulslike: há um universo lá fora, e a protagonista é uma zé-ninguém. A pirata Wuchang acorda na ilha de Shu sem lembrar como foi parar lá e percebe que sofre de uma doença chamada Plumagem, uma maldição que causa loucura em seus infectados.
Diante de uma cruel realidade, a personagem é encorajada a buscar respostas sobre seu papel e como pode solucionar a doença que transforma os humanos em monstruosidades. Além disso, Wuchang se vê no meio de eventos sobrenaturais durante a Dinastia Ming, em um folclore chinês com muitas referências.

No papel, a narrativa até que convence, mas, na prática, ela não envolve o jogador. Os NPCs e a forma como a história é desenrolada possuem pouco impacto e se perdem na maneira como o enredo é desenvolvido. Por meio de diálogos enigmáticos e falas poéticas dos personagens, tudo parece pretensioso demais e pouco convincente.
As interações de Wuchang com o universo da ilha de Shu pouco explicam a situação e só fazem o jogador ter cada vez mais dúvidas. Quando as respostas vêm, elas não importam, pois são apresentadas sem o peso necessário.

Destacar-se em um mercado saturado é uma tarefa muito difícil. Por isso, irei dedicar esta próxima seção da análise para apresentar as novas mecânicas que dão uma cara única a Wuchang: Fallen Feathers.
Já é de conhecimento geral que um soulslike é marcado pela alta dificuldade atrelada ao sentimento de recompensa e à interligação entre cenários, gerando uma sensação de conexão entre ambientes. Isso é visto no título da Leenzee (embora mereça críticas), mas há ideias originais boas, como um sistema de personalização diverso e elementos na jogabilidade com uma boa variação.

Ao contrário de apostar em um sistema de RPG com subida de nível e atribuição de pontos de atributos, o game apresenta uma vasta árvore de habilidades que garantem melhorias no dano, defesa etc., além de oferecer skills passivas e ativas. Com isso, a evolução da heroína é sempre nítida e constante, dando novas ferramentas para vencer os desafios.
Falando sobre os desafios, Wuchang entrega muitas opções para quem busca encontrar um estilo de jogo adequado. O foco está na esquiva e em movimentos rápidos, mas há um total de seis estilos de armas que mudam completamente o move set da protagonista, focando em dano, velocidade ou alcance.

A flexibilidade também é uma peça fundamental da experiência. É possível usar uma espada de duas mãos e alternar para uma lança com apenas um botão. A mecânica não somente traz novas habilidades que mudam a abordagem nas batalhas, como também permite que o jogador crie estilos únicos e mescle builds de diferentes formas.
Ainda falando sobre novidades, dá para mencionar o sistema de magias e aperfeiçoamentos que são obtidos durante as batalhas contra inimigos especiais. Não é necessário ser um mago para usar habilidades especiais, nem farmar experiência para ter engastes únicos. As batalhas são os principais incentivadores para buscar aprimoramentos poderosos.

Por fim, uma grata surpresa foi como a mecânica de Corrupção trouxe um ar diferente para o projeto. Todo jogador de soulslike está acostumado a buscar sua experiência perdida no local da derrota, mas, em Wuchang: Fallen Feathers, derrotar humanos acumula Corrupção a tal ponto que desperta o Demônio Interior, manifestado justamente no ponto onde o XP foi perdido. Para resgatá-lo, é necessário abater o poderoso inimigo.
Por mais que seja um desafio frustrante perder a experiência por causa desse inimigo, é válido elogiar a criatividade em justamente gerar uma situação inédita dentro de um sistema há muito tempo estabelecido.

Enquanto as ideias originais de Wuchang: Fallen Feathers possuem boa qualidade, o básico de todo soulslike fica abaixo do padrão. No primeiro caso, destaca-se a falta de um sentimento de recompensa satisfatório ao vencer os chefões e inimigos aleatórios.
A construção dos cenários e das boss battles deveria gerar no jogador um grande senso de perigo e, consequentemente, uma necessidade de vitória. Aqui, todos os monstros são apresentados da forma mais genérica possível, impedindo qualquer conexão com o jogador.

Se você lembra com carinho de alguns chefões de Bloodborne, Elden Ring, Lies of P e outros do gênero, vai ser difícil lembrar o nome de qualquer um de Wuchang.
O sistema de exploração também fica abaixo de uma experiência padrão de soulslike. Por mais que haja caminhos interconectados, eles são extremamente imprevisíveis e bastante confusos. É algo parecido com o level design de Dark Souls 2 — pouco intuitivo e com bastante dificuldade para encontrar o objetivo.

A situação é agravada pela ausência de um mapa em Wuchang. Há uma bússola que identifica pontos de interesse, mas as fases com muita verticalidade quase descartam o uso do recurso, por não atender ao propósito de localização.
Por fim, o visual também não é dos melhores. Embora haja uma boa direção de arte, com personagens e cenários que retratam uma cultura oriental cheia de símbolos, os gráficos não desempenham bem em vários momentos, renderizando itens em baixa qualidade.

Há muitos detalhes artificiais, elementos que não são mostrados corretamente e criaturas que parecem ter se transportado diretamente das gerações retrasadas de console.
Sim, é mais um soulslike, mas curiosamente é um dos poucos que realmente tenta trazer algo novo para o gênero.
Apesar de falhar em aspectos básicos como exploração e construção de chefões marcantes, o jogo mostra que a Leenzee teve a intenção clara de não cair no mais do mesmo. E só isso já coloca Wuchang: Fallen Feathers alguns passos à frente de muitos outros títulos esquecíveis.
Talvez ele não esteja entre os grandes destaques do ano e, com uma divulgação fraca, pode acabar passando despercebido. Ainda assim, é o tipo de jogo que pode surpreender quem gosta do gênero e vive procurando por experiências inéditas dentro desse universo tão desafiador e cheio de possibilidades.
Veredito
79
Consoles
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Jogadores
1
Veredito
79
Jogo
Wuchang: Fallen Feathers