Jogo
Call of Duty Modern Warfare 4
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O dever me chamou novamente e cá estou eu para falar de Call of Duty: Modern Warfare 4. E eu sei exatamente o que você está pensando: é o mesmo jogo todo ano. Quer saber? Não poderia concordar mais com você.
Sim, é mais um Call of Duty. Tem tiroteios por todos os lados, explosões e aquele multiplayer em que você morre com muita frequência sem nem saber de onde veio o tiro. Tudo muito familiar, não é mesmo?
Mas permita-me fazer uma pergunta: quando você compra um Call of Duty, o que espera encontrar?
Imagino que uma boa campanha, com personagens interessantes, conspirações, reviravoltas e muita ação. Depois, um multiplayer competitivo, com boas armas, mapas variados e razões suficientes para continuar jogando durante meses. Não parece ser uma exigência tão absurda para uma franquia que já faz isso há mais de duas décadas.
Pois bem, Modern Warfare 4 entrega isso. E o mais curioso é que consegue ser melhor que seus antecessores justamente por se aproximar daquilo que fez Call of Duty se tornar o que é.
A franquia passou os últimos anos tentando encontrar novas maneiras de justificar sua existência anual. Algumas ideias funcionaram, outras foram esquecíveis e algumas de péssimo gosto. Sim, Black Ops 7, estou olhando para você e suas alucinações.
Modern Warfare 4 vai pelo caminho contrário. Em vez de inventar uma nova identidade, a Infinity Ward resolveu recuperar a antiga. E descobriu o óbvio: Call of Duty não precisa se reinventar todos os anos. Precisa, antes de qualquer coisa, ser um bom CoD.
Ora, ora, que coisa, não!?
Há uma guerra acontecendo, países estão envolvidos em um conflito de grandes proporções, interesses se misturam a operações clandestinas e personagens que conhecemos há anos precisam lidar com as consequências das próprias decisões.
Para entender o que acontece aqui, porém, vale revisitar os últimos capítulos da franquia.
Em 2019, a Infinity Ward reiniciou a saga Modern Warfare, trazendo de volta o Capitão John Price e reconstruindo a Força-Tarefa 141. O segundo jogo ampliou o conflito, envolvendo cartéis, organizações terroristas e a controversa atuação do general Shepherd.
Já Modern Warfare III colocou Vladimir Makarov novamente no centro das atenções e deixou acontecimentos importantes para a história que acompanhamos agora. O principal deles foi a morte de John “Soap” MacTavish, assassinado por Makarov durante uma operação em Londres.
Na cena pós-créditos, Price decide fazer justiça com as próprias mãos e executa Shepherd. É justamente aí que Modern Warfare 4 encontra um de seus principais conflitos.

Agora, Price é movido pela vingança e passa a ser perseguido por antigos companheiros, incluindo Ghost e Gaz. Soldados que estiveram juntos em algumas das operações mais perigosas do mundo acabam ocupando lados opostos.
Amigos viram inimigos. E Price, que sempre esteve disposto a tomar decisões difíceis em nome de seu país, passa a enfrentar uma dúvida bastante interessante: afinal, a qual senhor ele ainda serve?
O jogo explora esse dilema sem transformar tudo em uma simples disputa entre mocinhos e vilões. Há interesses conflitantes, decisões questionáveis e consequências de uma história construída ao longo de vários jogos.
Quem acompanhou a trilogia original de Modern Warfare, lançada entre 2007 e 2011, também perceberá diferenças importantes. Embora os personagens sejam familiares, esta nova linha temporal apresenta inversões de papéis, relacionamentos e destinos.
É possível que os mais saudosistas não gostem de algumas escolhas, e eu entendo isso. Entretanto, uma releitura precisa seguir seus próprios caminhos. Recontar exatamente os mesmos acontecimentos seria apenas explorar a nostalgia.
Enquanto Price enfrenta seus próprios fantasmas, Modern Warfare 4 apresenta outro ponto de vista sobre o conflito.
Na península coreana, acompanhamos Park Hyun Jun, um jovem soldado sul-coreano que se vê diante de uma invasão em grande escala promovida pela Coreia do Norte, agora sob uma nova liderança.
Diferentemente de Price, Park ocupa uma posição muito mais baixa na hierarquia militar. Ele não controla os acontecimentos e sequer compreende completamente os interesses envolvidos no conflito. Seu objetivo imediato é sobreviver.
Há combates em larga escala, posições militares sendo disputadas, cidades tomadas pela guerra e soldados tentando cumprir ordens enquanto tudo ao redor está explodindo.
O contexto histórico também ajuda. A Guerra da Coreia, iniciada em 1950, teve seus grandes combates interrompidos em 1953 por um armistício. Entretanto, nunca houve um tratado definitivo de paz entre as duas Coreias.
Ou seja, tecnicamente, elas ainda estão em guerra.
Modern Warfare 4 utiliza essa tensão histórica para imaginar uma escalada militar contemporânea, trazendo uma perspectiva diferente para a campanha.
Park funciona como um ótimo contraponto ao Capitão Price. Um representa o soldado comum, que precisa obedecer e sobreviver. O outro é o veterano que já não aceita obedecer e está disposto a desafiar o sistema inteiro.
O terceiro grande arco envolve O Arqueiro, antagonista interpretado por Mads Mikkelsen.
Sua presença acrescenta uma dimensão importante ao conflito. Afinal, um bom Modern Warfare nunca dependeu exclusivamente de exércitos se enfrentando. Sempre existiram figuras manipulando interesses e transformando disputas localizadas em crises internacionais.
Mikkelsen combina com essa proposta. Seu estilo mais contido ajuda a construir um antagonista que não precisa berrar ou realizar demonstrações exageradas de poder para representar uma ameaça.

Em conjunto, os três arcos oferecem uma estrutura interessante: a guerra vista por quem precisa sobreviver a ela, por quem desafia suas próprias lealdades e por quem pretende manipular os acontecimentos.
A campanha entrega belos gráficos, ótimas sequências de ação, operações militares e confrontos de grandes proporções. É cinematográfica, surpreendente e possui personagens interessantes.
Principalmente, demonstra que Call of Duty ainda sabe contar boas histórias sem depender de viagens psicodélicas, alucinações sem sentido e chefões bizarros.
Sim, Black Ops 7, estou falando de você novamente.
Nos últimos anos, Call of Duty se tornou uma experiência cada vez mais acelerada. A movimentação ganhou novas possibilidades, os confrontos passaram a acontecer em intervalos menores e, em determinados momentos, o cansaço batia.
Modern Warfare 4 continua sendo um jogo rápido. Muito rápido, aliás. Entretanto, a intensidade é menor do que nos dois Black Ops anteriores, permitindo que as partidas tenham um pouco mais de cadência.
Quem gosta de rushar continua encontrando oportunidades para isso, enquanto jogadores mais pacientes conseguem explorar rotas alternativas, controlar regiões dos mapas e escolher melhor o momento de avançar.
E a variedade dos cenários contribui bastante para esse equilíbrio.

Há mapas pequenos, médios e grandes, cada um favorecendo abordagens diferentes. Nos ambientes menores, armas de curta distância e reflexos rápidos fazem a diferença. Já nos mapas maiores, controlar linhas de visão, antecipar movimentos e utilizar equipamentos de maior alcance se torna mais importante.
Quando todos os mapas favorecem o mesmo comportamento, o multiplayer fica repetitivo. Modern Warfare 4 evita esse problema ao permitir diferentes estilos de jogo.
O balanceamento do arsenal também está interessante, com espaço para adaptar diferentes categorias de armas às situações de combate.
Cada attachment modifica características que influenciam diretamente o desempenho do armamento. Uma configuração voltada para reduzir o recuo pode melhorar a precisão em confrontos de média distância, mas comprometer a velocidade de mira. Já uma montagem focada em mobilidade pode facilitar confrontos próximos, sacrificando parte do controle.
E acredite: um attachment mal escolhido pode transformar uma boa arma em uma experiência bem ruim.
Por isso, recomendo observar as estatísticas antes de montar seus equipamentos. Não basta procurar indicadores positivos, é preciso compreender o que você está sacrificando para conquistar determinada vantagem.
A mesma lógica vale para as perks e demais elementos da classe. Uma configuração eficiente depende de escolhas coerentes com seu estilo de jogo.
O multiplayer continua simples de compreender, mas exige conhecimento para ser dominado.

Uma das melhores mudanças de Modern Warfare 4 está na progressão.
Agora, diversos attachments são universais entre armas compatíveis. Portanto, ao desbloquear determinado acessório, você não precisa necessariamente repetir o processo em outro armamento.
Isso reduz bastante o grind artificial e incentiva a experimentação. A evolução também parece mais rápida, especialmente nos níveis iniciais, com recompensas aparecendo em uma frequência satisfatória.
A nomenclatura de alguns equipamentos e sistemas foi simplificada, facilitando o entendimento dos desbloqueios.
Outra novidade interessante são os dois tipos de Prestígio.
O Prestígio Clássico mantém a estrutura tradicional: você reinicia seu nível e precisa reconquistar os equipamentos desbloqueados. Em compensação, recebe 20% de bônus de XP, recompensas adicionais e um vale para manter permanentemente um item.
Já o Prestígio Regular permite reiniciar o nível preservando seus desbloqueios, oferecendo uma alternativa para quem não deseja perder acesso às classes favoritas.
O sistema conta com dez níveis de Prestígio e uma jornada de Mestre de Prestígio que chega a 1.000 níveis. Ou seja, conquistar aqueles símbolos mais raros ainda exigirá muitas horas de dedicação.

As armas também possuem Prestígio próprio. Depois de alcançar o nível máximo, é possível reiniciar sua progressão para obter recompensas exclusivas, incluindo camuflagens especiais. Nesse processo, os acessórios voltam a ser bloqueados na arma prestigiada, embora os universais continuem disponíveis em outras armas compatíveis.
Outro avanço está no grind de camuflagens, que conecta os diferentes modos.
É possível conquistar parte das recompensas jogando multiplayer, Warzone ou DMZ, com desafios adaptados para cada modalidade. Isso significa que o DMZ pode facilitar determinadas conquistas, especialmente aquelas que envolvem eliminações de inimigos controlados pela inteligência artificial.
Entretanto, as camuflagens de maestria continuam possuindo objetivos específicos, preservando desafios exclusivos para cada modo.
A progressão geral do multiplayer e do Warzone é compartilhada, enquanto o DMZ possui seus próprios níveis. Existe, porém, uma diferença importante: jogar DMZ contribui para o nível geral do multiplayer, mas jogar multiplayer não evolui diretamente seu nível de DMZ.
Também teremos mudanças nos eventos. Os desafios semanais deixam de ser o foco inicial, dando espaço para eventos especiais que oferecem recompensas próprias. Completar múltiplos eventos poderá garantir itens exclusivos, e alguns deles poderão retornar posteriormente.
Por fim, os tokens de XP passam a considerar apenas o tempo efetivo nas partidas, evitando desperdiçar minutos enquanto você permanece nos menus.
Apesar dos avanços, Modern Warfare 4 ainda carrega dois problemas bastante conhecidos: respawn e SBMM.
O sistema de ressurgimento está desajustado. Há situações em que você retorna praticamente na frente de um adversário e é eliminado antes mesmo de compreender onde está.
Isso compromete a fluidez e cria mortes que parecem injustas. E, convenhamos, poucas coisas são tão irritantes quanto morrer várias vezes consecutivas sem conseguir reagir.
O segundo problema é o Skill-Based Matchmaking, o famoso SBMM, que voltou bastante agressivo.
A proposta de aproximar jogadores de níveis semelhantes faz sentido, mas sua aplicação excessiva transforma praticamente todas as partidas em confrontos altamente competitivos.
Você joga bem, encontra adversários mais difíceis. Continua jogando bem, a exigência aumenta. Em determinado momento, parece impossível disputar algumas partidas apenas para relaxar.
E aqui surge uma contradição.
Modern Warfare 4 procura ser menos cansativo ao reduzir a intensidade dos confrontos em comparação aos Black Ops recentes, mas o matchmaking acaba recuperando parte desse desgaste.
Não considero o SBMM necessariamente ruim. O problema está na agressividade com que é aplicado e na dificuldade de encontrar partidas menos exigentes.
Às vezes, só queremos entrar em uma sala e nos divertir um pouco, sem a sensação de estar disputando uma final de campeonato.
Se o multiplayer representa uma evolução cuidadosa da fórmula tradicional, o DMZ é onde Modern Warfare 4 apresenta suas mudanças mais ambiciosas.
O modo de extração está muito mais desenvolvido, com progressão própria, gerenciamento de equipamentos, fabricação de itens e uma quantidade impressionante de objetivos.
Há tanta coisa acontecendo que o DMZ poderia tranquilamente ser tratado como um jogo independente.
A experiência acontece em Hajin, uma gigantesca zona de exclusão com instalações militares, regiões urbanas e diferentes pontos de interesse.
Há missões principais, atividades secundárias, operações dinâmicas, exploração, coleta de recursos e confrontos contra inimigos especiais.
Diferentemente do multiplayer, o DMZ permite planejar uma estratégia antes mesmo de entrar na partida. Você precisa decidir quais equipamentos levar, quais objetivos perseguir e, principalmente, quando vale a pena arriscar aquilo que conquistou.
Afinal, estamos falando de um shooter de extração. Entrar é relativamente simples. Sair com seus equipamentos é outro papo.

O DMZ possui 70 níveis de progressão, independentes do multiplayer tradicional.
Essa evolução permite desbloquear recursos e expandir sua Base Avançada de Operações, a FOB, que funciona como o centro de preparação entre as incursões.
É nela que você organiza equipamentos, acompanha objetivos, gerencia recursos e desenvolve melhorias.
O sistema de fabricação também é interessante. Materiais encontrados durante as operações podem ser utilizados para produzir equipamentos e expandir as funcionalidades da base.
Já para construir armas melhores, o processo é um pouco mais elaborado.
É necessário encontrar e extrair manuais de armamentos durante as incursões. Depois, reunir recursos, desbloquear acessórios e utilizar o Armeiro para montar configurações mais avançadas.
A oficina permite criar armas com até cinco attachments, enquanto determinados equipamentos encontrados no mapa podem apresentar configurações superiores.
Uma arma encontrada durante uma missão pode representar um equipamento valioso, especialmente quando oferece características que você ainda não consegue reproduzir na base.
Entretanto, há um preço: você pode perder aquilo que levou para a operação.

Isso faz com que a escolha dos equipamentos seja uma decisão estratégica, e não apenas uma questão de utilizar a arma mais poderosa disponível.
O modo também exige bastante dedicação. As melhores possibilidades não aparecem imediatamente, sendo necessário completar missões, acumular recursos e evoluir gradualmente.
Mas considero que essa estrutura valoriza o progresso. Há uma sensação real de conquista conforme novas funcionalidades e equipamentos ficam disponíveis.
Apesar da quantidade de sistemas e objetivos, o DMZ ainda apresenta algumas limitações.
A primeira envolve a presença excessiva de inimigos controlados pela inteligência artificial.
Há tantos bots espalhados pelo mapa que, em determinados momentos, os confrontos parecem mais próximos de uma missão cooperativa tradicional do que de um shooter de extração.
Você avança, elimina grupos de inimigos, coleta recursos e segue para o próximo objetivo.
Funciona e é divertido, especialmente jogando em equipe. As missões cooperativas são boas e incentivam a comunicação, a divisão de responsabilidades e a preparação antes de enfrentar situações mais complicadas.
Mas ainda falta um pouco de tensão. E aqui considero inevitável a comparação com ARC Raiders.
No jogo da Embark Studios, a possibilidade de encontrar outros jogadores, perder equipamentos valiosos ou ser surpreendido durante uma extração cria um estado permanente de alerta.
Modern Warfare 4 ainda não alcança o mesmo nível de emoção.
Isso não significa que o DMZ seja fácil. Determinadas operações exigem preparação, especialmente quando envolvem inimigos poderosos ou confrontos contra outros operadores.
Mas nem sempre existe aquela sensação de estar arriscando algo realmente precioso.
Ainda assim, considero o resultado positivo. O modo possui profundidade, variedade e sistemas suficientes para sustentar uma comunidade dedicada durante muito tempo.
Call of Duty Modern Warfare 4 é um bom Call of Duty. Parece uma conclusão simples, mas, considerando os altos e baixos recentes da franquia, já representa uma conquista importante.
A campanha recupera o espírito militar que tornou Modern Warfare tão popular, com ótimos personagens, conflitos internacionais, conspirações e reviravoltas interessantes.
O multiplayer também está bem legal. A movimentação continua acelerada, mas é mais cadenciada do que nos Black Ops recentes. Os mapas oferecem variedade, o arsenal está relativamente equilibrado e a progressão ficou menos burocrática. Entretanto, os respawns desajustados e o SBMM agressivo ainda incomodam bastante.
Já o DMZ é uma adição muito positiva. Embora em determinados momentos pareça um Warzone adaptado para extração, oferece uma quantidade impressionante de sistemas, objetivos e possibilidades de progressão.
Meu principal ponto de preocupação, entretanto, está no futuro.
Como já acompanho Call of Duty há muitos anos, sei que muita coisa pode mudar conforme as temporadas avançam. Novas armas podem comprometer o balanceamento e decisões relacionadas ao conteúdo cosmético podem transformar completamente a identidade visual do jogo.
A Activision afirma que pretende apostar em skins mais militares, reduzindo a presença daqueles conteúdos extravagantes que pouco combinam com o universo da franquia.
Seria ótimo. Mas, sinceramente, não tenho tanta confiança assim.
Já vimos Call of Duty começar com uma identidade militar relativamente consistente e, alguns meses depois, se transformar quase em um Fortnite.
De qualquer forma, considerando aquilo que Modern Warfare 4 oferece neste momento, o saldo é bastante positivo. É um jogo que não tem vergonha de utilizar uma fórmula conhecida, mas que demonstra competência para executá-la.
Veredito
83
Desenvolvedor
Infinty Ward
Consoles
PlayStation 5
Jogadores
1 - 4
Veredito
83
Jogo
Call of Duty Modern Warfare 4