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Pentiment: vale a pena?

Apesar do ritmo arrastado em alguns momentos, o jogo narrativo acerta na densidade histórica e personagens carismáticos

por Raphael Batista
Pentiment: vale a pena?

Penitência: 1.a pena imposta para expiação de um erro cometido. 2. situação difícil; incômodo, transtorno. A experiência de Pentiment é resumida pela definição desta palavra que faz parte do seu conceito. Neste game narrativo da Obsidian Entertainment, somos colocados em situações difíceis com consequências variáveis e que sempre levantam a pergunta: “será que essa foi a decisão correta?”

O sofrimento da penitência também está no game em alguns atributos, principalmente na cadência da história e na jogabilidade superficial. Se você não é fã de jogos narrativos, Pentiment não deve agradar em nada por causa de seus momentos arrastados. Contudo, assim como quem busca a penitência para alcançar o céu, o game reserva ótimos momentos para quem persevera até o final.

Um dos primeiros jogos da Microsoft a serem lançados no PlayStation 5, depois de a empresa anunciar sua nova estratégia de disponibilizar alguns exclusivos de Xbox em outras plataformas, ele pode ser um bom cartão de visitas para um determinado público.

Mestre Maler na Idade Média

Os diferenciais de Pentiment são a ambientação e temática. O game se passa na Idade Média, entre os séculos XVI e XVII, e tem um forte apelo teológico. Isso porque o protagonista, o mestre Andreas Maler, é um artista a serviço da Igreja Católica, prestando serviços para os bispos de Tassing. No entanto, o assassinato de um nobre na abadia coloca o amigo de Andreas em perigo, cabendo ao protagonista a missão de inocentá-lo.

Por um lado, quem gosta bastante de história e religião, verá no game um grande acervo sobre figuras históricas e momentos decisivos da humanidade. Reforma Protestante, Grandes Navegações, artistas renomados, tudo em um misto de tramas do cotidiano. Por outro, é muito difícil se engajar pela quantidade de textos e informações que o título vai despejando no jogador. São tantos detalhes, diálogos e conteúdos que a experiência fica engessada.

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Prepera-se para ler muito e ter muitas referências históricas. Fonte: captura de tela.

Fica claro que Pentiment não é um jogo para quem quer começar a se aventurar pelo gênero narrativo. Ele é tão denso que deixa a jogatina chata em certos momentos, principalmente no início. Enquanto o protagonista conhece os personagens e os lugares, a experiência sofre com o ritmo arrastado. Porém, quando a exploração se expande e o jogador começa a tomar decisões, aí a trama consegue capturar a atenção do player.

E fica aqui registrado o ponto positivo: há muitas em muitas opções de escolhas que geram situações diferentes. O jogador pode escolher investigar a fundo um de seus suspeitos e tomar muito tempo para ter bons argumentos ou colher pistas superficiais para conseguir visitar outro local e conversar com outras pessoas. Tudo isso conta, pois permitirá ou não o conhecimento de mais fatos e de outras narrativas.

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Certas decisões são possíveis de acordo com escolhas feitas anteriormente. Fonte: captura de tela.

Dos mesmos criadores de Fallout New Vegas

A desenvolvedora Obsidian Entertainment foi responsável pela criação de Fallout: New Vegas e The Outer Worlds, dois grandes e massivos RPGs. A expertise dos projetos foi passada para Pentiment que faz questão de ser complexo, cheio de possibilidades e com uma trama variável de acordo com as escolhas do jogador.

Infelizmente, a mesma diversidade de escolhas não acontece no gameplay que é bastante simples. Em um modelo 2D, o jogador só vai para frente ou para trás enquanto visita locais do vilarejo de Tassing, porque o estilo da arte simula que estamos lendo a história em um livro. O problema é que até os puzzles não são criativos e, por mais que a busca pelas pistas para solucionar os mistérios seja envolvente, não há um incentivo para conhecer mais do universo por meio da exploração.

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Os puzzles são bem simples e ficam aquém das expectativas. Fonte: captura de tela.

É claro que decidir terminar a campanha mais de uma vez permitirá ter uma noção dos caminhos disponíveis e das consequências, mas há momentos tão lentos que são capazes de desencorajar o jogador a se aventurar uma segunda vez. Tal problema não era presente em The Outer Worlds, por exemplo, que contava com armas e abordagens únicas. Aqui em Pentiment, não há outro tipo de escolha se não resolver tudo por meio do diálogo e argumentos plausíveis.

Por outro lado, é inegável ver a qualidade dos enredos quando eles engatam. Como um estúdio focado em boas histórias, a Obsidian consegue apresentar um universo tão peculiar da era renascentista e colocar pessoas com problemas comuns em um mundo nada comum. Essa mistura gera situações muito legais de desvendar e com momentos bem escritos. Para quem gosta de uma narrativa bem robusta, Pentiment entrega tudo isso enquanto alinha eventos históricos como pano de fundo.

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Os diálogos e personagens do jogo são envolventes. Fonte: captura de tela.

Viagem ao tempo

Jogar Pentiment exige um compromisso mais dedicado que pode afugentar quem busca um gameplay descompromissado. Sua história, suas referências históricas e a grande quantidade de texto podem deixar a experiência bem maçante. E isso não muda exceto nas horas das reviravoltas do enredo. Tanto é que as 15 horas de campanha seguem o mesmo esquema do início ao fim: construção de personagens, assassinato de alguém, busca pelas pistas e julgamento final.

O jogador fica restrito a essa ordem de eventos sem ter muito o que fazer além disso. Não há missões secundárias ou atividades paralelas. É claro que, dependendo de sua escolha de investigação, lugares escondidos aparecerão. Contudo, as surpresas só acontecerão de acordo com decisões feitas. Então, há chance do jogador acompanhar um plot twist ou não.

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Embora haja uma grande quantidade de lugares para visitar, o jogador sentirá vontade em ir apenas para onde deve chegar. Fonte: captura de tela.

A arte e a trilha sonora são elementos que contribuem demais para a sensação de viagem ao tempo. Por mais que simples, a direção artística traz os elementos simbólicos da fé cristã com cores, vitrais, pinturas e um estilo renascentista. É um visual bem diferente e tem o seu valor para a experiência do jogo que busca, constantemente, fortalecer o lado histórico.

A trilha sonora então é muito bem construída. A composição é feita com uma mistura de instrumentos clássicos, corais de vozes e ritmos típicos da Idade Medieval. Além disso, é interessante a inserção das músicas em momentos-chaves. Enquanto o jogador explora, é comum ouvir apenas sons naturais. No entanto, nas reviravoltas ou momentos mais tensos, os sons mais graves pesam o clima e trazem toda a sensação de perigo à tona.

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O sistema de horas do game faz com que cada escolha tenha seu peso. Fonte: captura de tela.

Pentiment: vale a pena?

Em suma, Pentiment é um bom jogo para quem gosta do gênero narrativo, embora sua cadência arrastada seja, muitas vezes, irritante e desnecessária. A forma como há uma grande variedade de escolhas e caminhos a seguir faz com que o jogador sempre questione se decidiu corretamente, permitindo uma gama de possibilidades e destinos distintos.

Infelizmente, a jogabilidade muito simples e o ritmo prejudicam a experiência. Por mais que seja um título experimental em um universo pouco comum no mundo dos games, ele não contará com a aderência do público por tais motivos.

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Texto e escolhas, este é o resumo do gameplay de Pentiment. Fonte: captura de tela.

A qualidade do texto e ambientação é inquestionável, mas seu desenvolvimento pode não sustentar o jogador até o final. Quem aguenta, fica satisfeito, mas pouco incentivado a fazer uma segunda playtrough para conhecer outros caminhos.

Em certos momentos, Pentiment é como uma penitência. Você sofre um pouco até alcançar a glória dos céus. É satisfatório para quem chegou ao final, mas frustrante para quem ficou pelo caminho.

Veredito

Pentiment
Pentiment

Sistema: PlayStation 5

Desenvolvedor: Obsidian Entertainment

Jogadores: 1

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84 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Reviravoltas interessantes e divertidas
  • Grande variedade de escolhas e consequências
  • Arte e trilha sonora singulares
  • Ambientação histórica muito diferente
Desvantagens
  • Ritmo bem arrastado em muitos momentos
  • Falta de incentivo além da campanha
Raphael Batista
Raphael Batista
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Formado em Teologia e apaixonado por PlayStation desde sempre. Jogos preferidos são The Witcher 3, Metal Gear Solid, God of War e Marvel's Spider-Man.