Horizon Forbidden West: vale a pena?
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Horizon Forbidden West: vale a pena?

Novo jogo da Guerrilla Games oferece um mundo aberto magnífico, profundidade em missões, confrontos perigosos e uma jogabilidade refinadíssima. Spoiler: vale sim

por Daniel dos Reis

Horizon Forbidden West é sobre amadurecimento e consolidação. Não espere do novo jogo da Guerrilla Games uma reviravolta completa ou mesmo uma reinvenção da fórmula. É a essência do que se viu em Zero Dawn, adaptada para uma nova era.

Mecânicas refinadas com novas possibilidades de jogabilidade, missões melhor construídas, em narrativa e em cadência, profundidade na exploração de personagens e suas motivações, mundo aberto robusto que clama por ser explorado, máquinas absolutamente mortíferas e uma trama que, embora não impressione e até peque na ausência de emoção, cumpre seu papel. É sobre isso.

Forbidden West também se distancia de uma possível interpretação vil de que é “só um DLC de Zero Dawn”. É um grande jogo – e um jogo grande também. Divertido, repleto de desafios e lindo. Pense nele em algo parecido como Rise of the Tomb Raider, por exemplo. Após um espetacular jogo em 2013, a segunda jornada de Lara Croft ampliou a narrativa, trouxe novas formas de exploração e se aprofundou.

Viajar para o Oeste Proibido é quase como uma viagem inesquecível com quem você ama. Conhecer novas culturas, passar perrengues, perder o fôlego em paisagens fotográficas, descobrir novas histórias… Em resumo, viver. Com tudo o que a vida tem a oferecer.

(Mais) Um grandioso acerto dos estúdios PlayStation, mostrando novamente que investimentos em grandes produções single-player fazem valer a pena o tempo de espera.

A Salvadora de Meridiana

Em Zero Dawn, vimos o desabrochar de uma Aloy determinada a descobrir suas origens, enfrentando máquinas brutais, ao mesmo tempo em que ajudava pessoas, mesmo quando elas não mereciam tanto. Seis meses depois, na história de Forbidden West, ela já carrega o fardo de ser a única capaz de salvar o mundo – outra vez – de uma terrível e misteriosa peste.

Em busca de pistas, a guerreira acredita que a maneira de resolver este problemão seja restaurando GAIA, sistema responsável por fazer de tudo no seu universo, desde o nascimento de pessoas até o cultivo do solo.

Só que a exilada Nora já explorou tudo no leste, cenário do primeiro. A única opção é partir para o Oeste em busca de novos vestígios, lugar onde ela espera encontrar velhos conhecidos – sim, aquele cara – entender melhor o que está realmente acontecendo e colocar um fim definitivo nessa complicação toda.

Aqui, vale destacar que a narrativa se preocupa pouco em explicar o que aconteceu no primeiro jogo, apenas se limitando a um pequeno vídeo no estilo “no episódio anterior”. Portanto, se você não jogou Zero Dawn, não é recomendado saltar direto para ele.

E logo no início Horizon Forbidden West mostra sua robustez no desenrolar das missões. São objetivos muito bem construídos, amarrados, ligando acontecimentos com histórias interessantíssimas, ricas em diálogos e conversas. Não se trata de “vá até o ponto A e fale com o guarda”. Há profundidade nas linhas. Não que o primeiro tenha sido ruim neste aspecto, mas este novo é excelente.

Você rapidamente se envolve com as resenhas e pessoas. E, embora grande parte esteja atrelada ao “ajudar alguém”, são ótimas histórias. Especialmente porque o “outro lado” é desconhecido e gera curiosidade. Poucos ousaram se aventurar além das muralhas da cidade de Meridiana… E menos ainda voltaram ao Leste para contar o que viveram.

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Há muitas ruínas e locais misteriosos para visitar. FONTE: Guerrilla Games.

Outro grande destaque é o trabalho nas missões secundárias. Elas estão no mesmo nível das principais, com subtramas interligadas a narrativa. Não há, por exemplo, historinhas do tipo: “leve uma flor para esposa de um fazendeiro, enquanto o mundo está acabando”. Todas fazem sentido e merecem ser jogadas não para farmar XP, mas por serem ótimas oportunidades de saber mais sobre o enredo.

Contudo, a trama não se trata somente de ir para o Oeste Proibido. Na jornada, Aloy vai se envolvendo em outros eventos, tendo de lidar com uma misteriosa rebelde, entrando em histórias como uma forasteira e logo assumindo o protagonismo. Tudo é sobre ela, em volta dela, suas habilidades, conquistas, desejos e vitórias.

Essa responsabilidade vai tornando a caminhada árdua, fadigada e até maior do que ela própria. Para isso, ela tem amigos, já conhecidos e também novos, e é legal ver como ela constrói sua relação de confiança com cada um. Os diálogos, no fim das contas, revelam tanto dos aliados como da própria Aloy.

Se no primeiro, talvez somente Sylens tenha despertado curiosidade, Forbidden West empenha-se melhor nestes aspectos oferecendo bons personagens. O storytelling trabalha em uma entrega constante e cadenciada de revelações. Uma trama que puxa outra, revelando um novo mistério, ao mesmo tempo, se preocupando em oferecer respostas para algumas pontas soltas vistas em Horizon Zero Dawn.

Neste sentido, o jogo segue a mesma fórmula de sucesso e a executa muito bem. Por outro lado, não há aquele impacto. No primeiro, as revelações eram importantes e a sensação de descoberta era incrível. Neste, o enredo se desenrola sem pressa, provocando uma sensação de “falta de urgência”.

O mundo está acabando, mesmo assim parece que as coisas não acontecem na velocidade necessária. Você vai montar o quebra-cabeças bem rapidamente, prevendo os eventos subsequentes com facilidade. O jogo até se esforça para impactar em algumas situações, mas não convence muito.

O Oeste Proibido

Dizem que “Tudo que é proibido é mais gostoso”, né? E como é gostoso o Oeste Proibido! Ambientação, cenários, máquinas incríveis, visuais estonteantes e muita, muita coisa para fazer. Essa é a combinação responsável por ampliar tudo visto em Horizon Zero Dawn.

Só não espere encontrar visuais rigorosamente iguais aos vistos na cinemática de revelação de jogabilidade. Ali, vimos um jogo que pode ser classificado “surreal”, com uma biologia marinha realista e cenários repletos de detalhes incríveis e dinâmicos. In game, não tivemos esse mesmo nível, mas ainda assim, é de cair o queixo.

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Encontrar o Pescoção e descobrir o meio de escalá-lo é uma das melhores coisas do jogo. FONTE: Captura/Daniel dos Reis.

O mundo aberto é rico, com ecossistemas vivos, cheio de ruínas para visitar e inspirador. Dessa vez Aloy pode até explorar grandes lagos nadando, com vida marinha, ameaças e segredos. As florestas, com uma qualidade gráfica melhor do que nunca, revelam belezas naturais como cachoeiras, mata fechada e máquinas como os Rabotes, uma espécie de macaco – do inferno.

Falando em máquinas, há uma quantidade bem significativa delas. São mais de 40, com variações, entre inéditas e as reaproveitadas. Claro, destaques para as imponentes, como os Rastejadores, Tremodontes e Agouro. Topar com alguma dessas é garantia de uma luta interessante, que exige um bom preparo.

Assim como em Zero Dawn, as criaturas estão em locais específicos. Nos picos gelados você se depara com a imponente Ave Tempestade, as praias escondem os Cortamarés, os desertos são lares das Britadeiras e há sempre um perigo à espreita, aguardando o momento certo para um ataque.

Explorar Horizon Forbidden West é se encantar a cada detalhe.

Pare um pouco e aprecie o canto dos pássaros; À noite, contemple uma gigantesca lua; No deserto, veja o balé dos redemoinhos, dançando graciosamente, desaparecendo em uma tempestade de areia.

E esta saborosa tarefa de exploração é facilitada com mecânicas de escalada aprimoradas e fáceis. Ainda que nem tudo seja passível de se agarrar, há locais de sobra. Chegar ao pico de uma alta montanha não exige tantos sacrifícios.

Lá em cima, descer é ainda melhor. Basta usar o planador, uma das novas adições de jogabilidade. Ele atenua quedas e proporciona momentos bem bonitos, além de melhorar significativamente a experiência. Prepare o print!

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O mundo aberto é de encher os olhos. Seu HD vai se encher de prints. FONTE: Guerrilla Games.

E, claro, tudo fica ainda melhor no PlayStation 5. O novo console potencializa os visuais com lindas texturas, profundidade, sombras e iluminação. Definitivamente, um dos jogos mais bonitos deste início de geração, com opções para aproveitá-lo com fidelidade (gráficos em 4K a 30 FPS) ou desempenho (60 FPS). Particularmente, a segunda opção é a melhor. Os visuais não perdem em qualidade, mas o game ganha uma nítida fluidez.

O DualSense também é explorado. Você sente o arco esticar através dos gatilhos adaptáveis, a resposta tátil oferece mais imersão ao nadar e o áudio 3D impulsiona a experiência. Poderia ser melhor? Sim. Mas é um bom aproveitamento.

Quanto ao PS4 (FAT, SLIM e PRO), se você guarda algum tipo de preocupação, fique tranquilo (a). O desempenho está ótimo. Obviamente não é no mesmo nível do PS5, mas oferece uma experiência justa, dentro das capacidades de um hardware de 2013, até com gráficos ligeiramente melhores que o game de 2017, porém em 30 FPS (PS4 FAT e SLIM). Você não vai se decepcionar.

Vale nota ainda as opções de acessibilidade. É notável os esforços dos estúdios PlayStation em tentar oferecer opções bem amplas para os jogadores, de modo que cada um, mesmo com limitações, consiga aproveitar os jogos da empresa.

Zeitgeist

É uma palavra em alemão que significa “espírito do tempo”.  Em resumo – bem resumo mesmo – pode ser entendida como um conjunto de elementos que formam todo ambiente intelectual e cultural de um período específico da história. Alguns até interpretam como características de indivíduos ao logo do tempo.

Com uma certa liberdade poética, o Zeitgeist de Horizon Forbidden West é o seu combate absolutamente voraz e viciante. É o que o define. Injeção de adrenalina diretamente na veia.

A jogabilidade é reconhecível. Se você experimentou Zero Dawn, não precisa de adaptação. Funciona quase tudo da mesma forma, só que bem melhor. Por sinal, vale até começar a jornada já no nível difícil – o jogo está mais fácil – para ter a melhor experiência de gameplay.

Enfrentar um Tirânico é uma saborosa luta. A máquina é imponente e vai te matar se você não tiver um plano. Disparar somente flechas oferece pouco resultado. Use o Foco, agora incrementado com novas opções de análises, e descubra fraquezas elementais, pontos de destaque, locais de armas e até marque pontos específicos.

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Ratejador é um dos oponentes mais legais do jogo. FONTE: Guerrilla Games.

Plante armadilhas, use o terreno a seu favor e explore os novos recursos de jogabilidade, como o Gancho. Ele adiciona uma nova camada e pode ser usado para acessar locais altos em momentos de exploração ou para se distanciar de forma segura do confronto, para avaliar melhor as opções e recuperar energias.

Não foi capaz de derrotar a máquina? Vá para bancada, aprimore seu traje, suas armas, amplifique sua árvore de habilidades e volte com um equipamento adequado.

Horizon Forbidden West possibilita que você molde Aloy a seu estilo de jogo: guerreira, emboscada, caçadora, sobrevivente, sabotadora e maquinista. São seis grandes opções que se desdobram e oferecem Impulsos de Bravura, um ganho temporário de força, cura ou efeitos.

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Desbloquear Impulso de Bravura é uma das novidades das árvores de habilidades. FONTE: Captura/Daniel dos Reis.

Como em um combate medieval, Aloy pinta seu rosto e ruge pra cima dos inimigos, mostrando seu lado feroz.

O jogo vai mais fundo do que somente melhorar uma habilidade aqui e outra acolá. Horizon se tornou engenhoso de várias maneiras. Agora é preciso pensar um pouquinho melhor para montar uma build afinada. Alguns trajes, por exemplo, têm suas estatísticas elevadas se determinadas habilidades forem desbloqueadas ou se estiverem equipados com bobinas específicas, o que incentiva a busca por componentes.

Não só isso, o combate corpo a corpo também está melhor, tanto em animações, como em recursos, com ênfase no Ressonador, quando a lança fica “carregada” e permite um ataque praticamente fatal.

O bacana é fazer as sequências que envolvem ataques leves, pesados, flechas, saltos e o grand finale arrasador.

Está tudo muito melhor. Do simples ao avançado: variações de armas, trajes, skills, efeitos elementais e animações. A Guerrilla Games se preocupou bastante em entregar algo realmente amplo e divertido.

Meu mundo novo

Não seria uma jogatina muito agradável se o preenchimento do mundo fosse tedioso ou mesmo obrigasse os jogadores a realizarem tarefas que eles não gostariam, seja para aumentar as horas artificialmente ou forçar um grind (Assassin’s Creed Origins….estou olhando para você!).

Felizmente, Horizon Forbidden West também escapa deste problema tão comum.

Há muitas atividades, entretanto elas são tão naturalmente oferecidas, que se tornam bem prazeirosas e recompensadoras.

Há de tudo um pouco: tarefas para NPCs dos muitos vilarejos, assentamentos e tribos;  trabalhos para melhorar trajes e armas; contratos no estilo The Witcher 3: Wild Hunt;  Arenas para treinar as habilidades;  Acampamentos e postos rebeldes para liberar; Ruínas para explorar; Caldeirões para converter e mini-games, com destaque para o Ataque das Máquinas, um complexo jogo de estratégia por turno que mescla vários elementos de RPG de mesa como: pontos de ataque, limites de movimentos, terrenos, vida, blindagem e muito mais. Vale visitar cada jogador do mapa e tentar vencê-los para ganhar recompensas.

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Ataque das Máquinas é um complexo jogo de estratégia por turnos. FONTE: Guerrilla Games.

Sem perceber, você estará executando tipos diversos destas atividades porque elas são legais – a maioria, pelo menos – e não por ser imposto para subir de nível. Isso deixa o game extremamente divertido e recompensador do nosso suado dinheirinho.

Em um bom ritmo, mesclando primárias, secundárias e atividades, você alcance o final do enredo com cerca de 50 horas de jogatina. Para conseguir os 100%, separe mais de 60 horas. Óbvio, depende do ritmo de cada um, todavia, é uma boa distribuição.

Ave, Aloy!

Horizon Forbidden West é o que se espera que ele seja. Um grandioso jogo. Mundo aberto lindo, repleto de boas atividades, combates alucinantes contra máquinas super bem feitas, ampliado com mecânicas melhores, recompensador, divertido e misterioso.

É perfeito? Quase. O trama principal não empolga tanto quanto a do primeiro e tem uns errinhos que embora não incomodem, devem ser citados: às vezes as vozes dos personagens NPCs ficam um pouco baixas, o cabelo de Aloy tem uns comportamentos esquisitos em alguns momentos e a inteligência artificial não é tão sofisticada. Máquinas e humanos são programados para matar e não bolam estratégias inteligentes.

Também, vale nota: durante o gameplay alguns probleminhas aconteceram durante os nossos testes, mas todos eles eram de conhecimento da Guerrilla e já foram consertados em um patch Day One. O grande público sequer vai saber da existência deles, o que até reforça o comprometimento do estúdio.

Por fim, a localização para nosso idioma. A dublagem está ótima, com as vozes conhecidas retornando, com destaque, lógico, para Aloy. Tatiane Keplmair volta a emprestar sua voz para ruiva exilada em mais um belo trabalho.

Vale? Certamente sim. No entanto, fica a recomendação de, primeiro, jogar Horizon Zero Dawn e a expansão Frozen Wilds.

Mais uma flecha no alvo, PlayStation Studios.

*Cópia do game enviada antecipadamente e gratuitamente pela equipe de PlayStation Brasil.

Veredito

Horizon Forbidden West
Horizon Forbidden West

Sistema: PlayStation 4 | PlayStation 5

Desenvolvedor: Guerrilla Games

Jogadores: 1 Jogador

Comprar na Amazon
96 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Visuais incríveis
  • Jogabilidade melhorada
  • Mais profundidade nos diálogos
  • Muitas opções de tarefas, missões secundárias e trabalhos
  • Mecânicas verticais e melhorias na escalada
  • Mundo aberto rico em detalhes
  • Diversas opções de acessibilidade
Desvantagens
  • Narrativa não surpreende
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