De Winning Eleven ao eFootball: o tempo fez mal à franquia da Konami?
30 anos de história foram marcadas por explosões de sucesso, mudanças estruturais e queda na popularidade
Por décadas, a Konami foi sinônimo de excelência nos gramados virtuais. De suas origens humildes com International Superstar Soccer até o auge de Winning Eleven e Pro Evolution Soccer (PES), a franquia japonesa conquistou corações e mentes de jogadores ao redor do mundo, especialmente no Brasil, onde se tornou um fenômeno cultural.
Mas o que antes era uma celebração de jogabilidade refinada e paixão pelo futebol transformou-se, com o passar do tempo, em uma sombra do que já foi. Hoje, rebatizada como eFootball, a série enfrenta críticas severas, uma queda vertiginosa de popularidade e a sensação de que o tempo, aliado a decisões questionáveis, não foi gentil com a criação da Konami.
Como uma franquia que rivalizou com o poderoso FIFA da EA Sports perdeu o rumo?
A era de ouro: Winning Eleven e a febre do PlayStation 1
Tudo começou em 1995, quando a Konami lançou International Superstar Soccer para o Super Nintendo, um título que já apontava o potencial da empresa em simular o esporte mais popular do planeta. Mas foi com World Soccer: Winning Eleven, a partir de 1996 no PlayStation 1, que a franquia encontrou sua identidade.
No Japão, o nome Winning Eleven tornou-se lendário; no ocidente, ele evoluiu para Pro Evolution Soccer em 2001, mas no Brasil, o termo “Winning” permaneceu no vocabulário dos jogadores, refletindo a nostalgia até hoje.
Na era do PlayStation 1, Winning Eleven era mais do que um jogo: era uma revolução. Com gráficos impressionantes para a época, uma jogabilidade fluida e uma atenção aos detalhes que o rival FIFA ainda não conseguia igualar, o título da Konami dominou o mercado.

No Brasil, onde o futebol é quase uma religião, o jogo ganhou status de cult. A pirataria ajudou a espalhar sua popularidade, com versões modificadas como o Bomba Patch trazendo times brasileiros atualizados — algo que a Konami, limitada por questões de licenciamento, nem sempre conseguia oferecer oficialmente.
Era comum ver amigos reunidos em frente a TVs de tubo, disputando partidas acirradas com controles gastos, enquanto nomes fictícios como Castolo e Minanda da Master League entravam para o folclore gamer.
A simplicidade e a profundidade da jogabilidade eram o diferencial. Diferente do estilo mais arcade de FIFA na época, Winning Eleven recompensava paciência, estratégia e habilidade. Para muitos, era o simulador definitivo de futebol, um reflexo digital do esporte que encantava pela autenticidade.
A transformação em Pro Evolution Soccer e o auge no PlayStation 2
Com a chegada do PlayStation 2, a franquia deu um salto. Renomeada como Pro Evolution Soccer no ocidente em 2001 (Winning Eleven 5), a série refinou ainda mais sua fórmula. A Master League, modo em que o jogador gerenciava e desenvolvia um time, tornou-se um marco, oferecendo uma experiência que misturava simulação e RPG.
Títulos como PES 5 (2005) e PES 6 (2006) são até hoje lembrados como o ápice da franquia, frequentemente citados como os melhores jogos de futebol já feitos.
A Konami parecia imbatível. Enquanto FIFA investia pesado em licenças oficiais, atraindo jogadores casuais com times e estádios reais, PES conquistava os puristas com uma jogabilidade superior. O controle preciso da bola, as animações realistas e a inteligência artificial desafiadora faziam de cada partida uma experiência tensa e gratificante.
No Brasil, a popularidade explodia, com vendas robustas mesmo diante da concorrência — em 2012 e 2013, PES ainda liderava o mercado nacional, algo impensável em outros países onde FIFA já reinava.
PES 14: o último suspiro de grandeza?
O ano de 2013 marcou um ponto de virada com Pro Evolution Soccer 2014. Desenvolvido com a Fox Engine — a mesma usada em Metal Gear Solid V —, o jogo prometia uma revolução gráfica e técnica.
Lançado em setembro daquele ano, PES 14 trouxe animações mais naturais, uma física de bola aprimorada e uma tentativa de modernizar a franquia para competir na nova geração de consoles (PlayStation 3 e Xbox 360). Jogadores como Neymar e Messi ganharam representações fiéis, com movimentos característicos que encantavam os fãs.

No entanto, PES 14 também expôs fragilidades. A transição para a Fox Engine foi apressada, resultando em bugs e uma otimização irregular. A ausência de muitas licenças, como a Bundesliga, e a perda de estádios espanhóis para a EA Sports começaram a pesar.
Ainda assim, o jogo foi bem recebido por sua jogabilidade, que mantinha a essência da série: lenta, tática e realista. Para muitos, foi o último grande PES, um canto do cisne antes da decadência.
A decadência: microtransações, eSports e a sombra de FIFA
A partir de PES 14, a Konami enfrentou um dilema: como se manter relevante em um mercado dominado por FIFA? A EA Sports havia dado um salto com FIFA 09, introduzindo o modo Ultimate Team, que transformou o jogo em uma máquina de lucrar com microtransações.
A Konami respondeu tardiamente com o MyClub em PES 2015, um modo online competitivo que permitia montar times com compras de jogadores via microtransações. Embora tenha atraído uma nova audiência, o foco crescente no MyClub alienou fãs tradicionais, que viam os modos offline, como a Master League, perderem prioridade.
A pressão para competir com FIFA também levou a escolhas questionáveis. Em 2018, PES 19 perdeu a licença da Champions League para a EA, um golpe duro para sua credibilidade.

A tentativa de se reinventar como eFootball PES 2020, com ênfase em eSports, mostrou ambição, mas não reverteu a tendência de queda. A jogabilidade, antes o maior trunfo, começou a estagnar, enquanto FIFA evoluía com inovações constantes.
O golpe final veio em 2021, com o lançamento de eFootball. Anunciado como um jogo gratuito, multiplataforma e baseado em atualizações sazonais — inspirado em sucessos como Fortnite —, o título foi um desastre.
Bugs grotescos, como jogadores deformados e animações quebradas, somados a um conteúdo escasso, fizeram de eFootball o jogo pior avaliado da história da Steam, com apenas 9% de aprovação em seus primeiros dias. A Konami pediu desculpas e prometeu melhorias, mas o dano à reputação foi irreparável. O que era para ser uma reinvenção tornou-se um símbolo de declínio.
O impacto do tempo no eFootball
O tempo, de fato, não foi gentil com a franquia da Konami. Nos anos 90 e 2000, Winning Eleven e PES prosperaram em um mercado menos saturado, onde a qualidade da jogabilidade bastava para conquistar jogadores. Mas a ascensão das microtransações, a profissionalização dos eSports e a força do marketing da EA mudaram as regras do jogo.
A Konami tentou se adaptar, mas suas decisões — como priorizar o MyClub e lançar um eFootball inacabado — sugerem uma perda de identidade.
A falta de licenças sempre foi um calcanhar de Aquiles, mas antes era compensada pela excelência técnica. Hoje, com FIFA (agora EA Sports FC) oferecendo um pacote completo de times, estádios e modos de jogo, eFootball parece um produto incompleto, incapaz de atrair novos jogadores ou reter os antigos.

A pressão para competir com um rival bilionário levou a Konami a abandonar o que a tornava única: a paixão pelo futebol em sua forma mais pura.
De Winning Eleven a eFootball, a trajetória da Konami é uma montanha-russa de glórias e tropeços. A popularidade avassaladora da era PlayStation 1, a excelência de PES no PlayStation 2 e o esforço de PES 14 para se manter relevante são capítulos de uma história que já foi brilhante.
Mas o tempo revelou uma franquia que não soube evoluir sem perder sua alma. Enquanto FIFA se consolidou como um titã comercial, eFootball luta para justificar sua existência.
Para os fãs, resta a nostalgia de tardes jogando com amigos e a esperança de que a Konami encontre um caminho de volta ao topo. Por ora, no entanto, a pergunta persiste: o tempo fez mal à franquia? Sim, e talvez isso tenha sido o que realmente influenciou as escolhas de quem segurava o controle.