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The Last of Us Part II: vale a pena?

Jogo da Naughty Dog consegue surpreender através de uma narrativa poderosa, madura e repleta de significados. É mais um "must have" da família PlayStation

por Daniel dos Reis
The Last of Us Part II: vale a pena?

“Há três verdades: a sua, a minha e…a verdade”. O famoso provérbio pode ser considerado como uma base para The Last of Us Part II, que levanta um tema relativamente comum, mas que talvez nunca será solucionado completamente:

O que é a verdade?

Mais do que isso: o que é certo e errado? Aliás, existe um certo e um errado? Existem pessoas boas e más? Ou é tudo uma questão de perspectiva? E se, durante toda a sua vida, você acreditou em uma coisa que “era outra”?

Com a qualidade narrativa que já é marca da Naughty Dog, o enredo envolvente da nova aventura de Ellie questiona: os seus motivos são mais nobres, ou talvez mais válidos, do que os meus? É algo que vai muito além do gameplay.

Você, certamente, leu algo como: “violento”, “visceral”, “impactante” e tantos outros adjetivos para tentar categorizar o jogo. Ele é tudo isso, sim, e até já estamos fartos de ver estes elementos em Mortal Kombat, DOOM, filmes, etc.

Mas ele dá um passo adiante. E isso é o que faz “Part II” ser diferenciado.

A jornada de Ellie brinca com nossas emoções, testa nossas convicções e desperta sensações diversas em cerca de 30h de uma experiência poderosa que eleva, mais uma vez, o nível de qualidade.

Você já viu aqui que The Witcher: Wild Hunt, Uncharted 4: A Thief’s End, God of War e Red Dead Redemption 2 estabeleceram novos patamares, progressivamente. The Last of Us 2 sobe um pouquinho mais a régua.

E fica claro o porquê da nomeação “Part II” ao invés de “2”. The Last of Us I e II são parte de um todo muito íntimo e indivisível. É impossível, do ponto de vista narrativo, separá-lo em segmentos, como a série Uncharted.

Nota: não há spoilers na avaliação.

Part II

A segunda parte começa cinco anos após os acontecimentos do primeiro jogo. Joel e Ellie vivem em Jackson, um pequeno condado onde moram Tommy – irmão de Joel – e sua esposa Maria.

A dupla leva uma vida relativamente “normal” em uma comunidade que conta com vários elementos de uma organização social. Há energia elétrica – aquela mesma que Joel ajudou a reativar -, restaurantes, escolas, festas e novos relacionamentos.

Embora estejam próximos, Joel e Ellie têm rotinas e casas separadas. E aí o jogo já começa explorar os acontecimentos pós-Salt Lake City.

Ellie já não é mais a garotinha de Joel. Ela tem suas responsabilidades, ambições e vontades. Por outro lado, o coroa parece ter dificuldades em se aproximar da jovem. Quase como quando um pai tenta criar vínculos com filhos numa fase mais rebelde.

Mas o perigo está lá fora. Longe dos muros da pequena cidade, há todo um mundo colapsado, pior ainda que o visto no primeiro. Não há quaisquer resquícios de uma organização verticalizada, como um “governo”.

Os sobreviventes ainda precisam garantir que ameaças, infectadas ou humanas, fiquem distantes de Jackson. E em uma patrulha de rotina, um evento absolutamente traumático rouba a paz de Ellie.

Este acontecimento é o plot inicial para a narrativa. Clichê, dúbio ou até previsível. Mas assim como no primeiro, cujo objetivo é contrabandear uma carga (Ellie), esse ponto de partida não é o principal elemento, ainda que seja realmente forte. E aí já fica claro como a Naughty Dog foi corajosa.

Não só por tentar continuar uma história cultuada, mas por abalar algumas bases de um jogo que muitos consideram “sagrado”. Não é difícil encontrar alguém que teve um pé atrás com a sequência de The Last of Us, por medo dela “macular” o original. Talvez você até seja um deles. Mas fique tranquilo.

É diferente, sim, mas incrível. Ellie sai da sua zona de conforto em uma viagem que é totalmente motivada por vingança. Se o primeiro era sobre amor, Part II começa com ódio; puro e simples. Os dois sentimentos mais primitivos do ser humano.

Só que, aos poucos, o ódio vira obsessão, e The Last of Us Part II manipula os sentimentos dos jogadores, despertando o pior e o melhor de cada um de nós.

A todo instante, o game vai construindo uma visão, mas depois de um tempo ele vai, vagarosamente, plantando outras sementes. Colocando sempre os jogadores contra a parede, estimulando sensações, despertando ira, sentimentalismo, raiva, companheirismo…

The Last of Us Part II - 12
Há momentos muito bonitos, mas a maioria é puro ódio.

Não é exatamente sobre uma Ellie sanguinária em busca da amarga vingança, mas sim sobre tudo o que cada sobrevivente desse mundo pós-apocalíptico fez para estar ali hoje. Não, não há heróis nessa história. E isso fica claro no ritmo do jogo.

A Naughty Dog, em nenhum momento, poupa os jogadores. Diferentemente do antecessor, onde era possível perceber que algo dramático estava para acontecer, Part II te atira sem rodeios uma cena de alto impacto e logo em seguida oferece o controle. Não há sequer alguns segundos para processar os fatos.

Talvez este seja o jogo com a maior carga emocional dos videogames. E não caia na armadilha muito ventilada por aí de que há uma agenda progressista ou um posicionamento. The Last of Us Part II é maduro e inclui, sim, temas “polêmicos”, mas eles estão no jogo em meio a uma história muito mais ampla.

+18

Beijos e abraços não definem, de nenhuma maneira, a trama. O jogo recebeu uma classificação indicativa de 18 anos não foi por acaso. Ele é chocante. Mesmo. Mas não existe violência “gratuita”. O mundo é cruel e Ellie se atirou de cabeça em uma escolha de encará-lo de frente.

E se a pressa é a inimiga da perfeição, Part II faz questão de levar o seu tempo. É um jogo realmente grande, com o uso de várias técnicas já aplicadas pela equipe em muitos dos seus outros títulos.

Todo este ciclo é habilmente usado para os jogadores criarem conexões, ligarem os pontos e apararem as arestas com respostas que conectam passado e presente. E só depois da metade você começa a desenhar um quadro mais claro.

A história também é ostensivamente complementada com sub-narrativas. Assim como no primeiro, neste você vai encontrar cartas, e elas contam com passagens bem interessantes que ajudam a montar o quebra-cabeças.

The Last of Us Part II - 2
Assim como no primeiro, os humanos são ameaças tão terríveis quantos os infectados.

Nelas, você vai perceber que Ellie é uma parte em um furacão de acontecimentos. As estórias nos apresentam a WLF (Washington na Luta pelo Futuro), uma espécie de milícia, muito mais organizada que os Vaga-Lumes, que acabou vencendo o Exército e tomou para si o comando de Seattle e seus arredores.

E eles estão em conflito contra os Serafitas (Cicatrizes), uma seita religiosa que surgiu logo após o surto. Eles acreditam que os acontecimentos são uma espécie de “obra divina” jogada sobre a humanidade como uma punição.

Apesar de serem lados de uma mesma moeda, você entra nas entranhas de ambos e acaba descobrindo suas motivações, loucuras e a forma como eles tratam suas questões. Desde a lealdade até o fanatismo.

E depois de despejar o ódio de Ellie, oferecer uma outra perspectiva e temperar com a entrada de outros indigestos ingredientes, o jogo te amarra em uma encruzilhada emblemática e você é posto no fio da navalha onde não há nenhuma saída. Seus sentimentos são colocados em um doloroso teste.

Uma jornada sem precedentes, capaz de mudar a vida de muitos.

Por outro lado, por ser tão divisora, certamente haverá questionamentos. Diferente do primeiro, cujo fim agradou bastante, Part II deve passar bem longe disso. Goste ou não, é inegável que a forma como chegamos aos créditos finais é merecedora de um “Oscar”.

Roteiro, construção de diálogos, profundidade de personagens e conexões são dignos de uma nota dez.

Vale destaque ainda para localização brasileira. Estupenda. As mesmas vozes vistas no jogo de 2013 estão de volta. Não é só um trabalho de localização, é atuação. E o time envolvido está de parabéns por isso.

O Mundo Perdido

The Last of Us Part II amplia significativamente o universo do primeiro, seja em narrativa, jogabilidade, ambientação ou imersão.

E não dá para dissociar a narrativa das outras partes. Todos trabalham servindo-se uns dos outros a todo instante. Às vezes você encontra um cofre secreto que lhe oferece itens, mas também há uma carta com uma mensagem que acaba preenchendo uma lacuna da história.

Os cenários estão muito mais amplos e a exploração ainda continua sendo a palavra-chave do jogo. Vale vasculhar cada cantinho em busca de itens, colecionáveis ou equipamentos. Por sinal, é mais necessário e recompensador do que nunca.

E de tão grandes os ambientes, o jogo cria uma sensação involuntária de “será que estou esquecendo algo?”. Um suprimento, talvez um segredo ou, quem sabe, algum elemento que irá completar a trama?

Mas nada é gratuito. Nenhum elemento está ali para fazer volume. Você pode não visitar um local, onde poderia vivenciar uma das cenas mais bonitas do jogo, por exemplo. Há partes que só são destravadas (diálogo, cena, sub-história) se você investigar.

Os ambientes foram desenhados de forma inteligentes para entregar uma das mais formidáveis formas de se experienciar um jogo. Tudo está conectado e à serviço de uma história ampla, rica e impactante.

The Last of Us Part II - 6
Ambientes bem amplos.

Embora não seja uma proposta sandbox, há momentos onde o jogo se abre, oferecendo uma gigantesca parte para exploração, sendo necessário, inclusive, um mapa para orientações e marcações de pontos que você já visitou. E cada construção entrega uma linha de pensamento.

Como não se impressionar com a riqueza de detalhes? Lojas de músicas recriadas perfeitamente, shoppings, bancos, teatros, etc. Óbvio, tudo isso consumido pela destruição.

Grande parte da viagem se passa em Seattle, já bem envolta pelo avanço da natureza e tudo é incrível de se ver. Talvez os visuais mais bonitos do PlayStation 4. Destaque para a vegetação, com animações super-realistas.

Como um todo, o jogo surpreende em seus aspectos técnicos. Animações, construções, efeitos de luzes e na paleta de cores. The Last of Us Part II se distancia um pouco do primeiro e serve aos jogadores uma ambientação bem sombria.

Novamente, incorporando-se à proposta.

The Last of Us Part II - 5
As partes de barco são fenomenais.

Isso tudo embalado por uma trilha sonora sem igual composta, mais uma vez, por Gustavo Santaolalla. E ela segue a mesma batida, intensa quando deve ser e penetrante no encerramento. Os fãs vão se emocionar com o encerramento.

A Naughty Dog Game

The Last of Us Part II imprime a marca da Naughty Dog de várias formas e é o supra-sumo da sua expertise. Os mais de 30 anos de experiência do estúdio são claramente vistos em vários elementos do game.

Há momentos de muita ação como em Uncharted, daqueles de tirar o fôlego onde você não consegue desgrudar os olhos da telinha nem por um segundo, outras situações aterrorizantes, onde o jogo flerta com survival horror em ambientes escuros, aberrações espreitando e atacando sorrateiramente, causando muitos sustos, lutas ferozes de tremer o DualShock 4.

Mas o grande ponto alto é o requinte nos detalhes das animações. Você consegue perceber a respiração de Ellie mais acelerada em combates, seu semblante muda, sua maneira de correr é diferente e até sua pupila dilata.

The Last of Us Part II - 11
Animações ultrarealistas.

Com finalizações de dar inveja a Mortal Kombat, você percebe o quão brutal está o game. Experimente usar um inimigo como refém e exploda seus miolos, para você ver. Sobrarão pedaços do cérebro na roupa da protagonista.

Ou então, plante um explosivo e assista tripas voarem. Até os dedos dos inimigos são dilacerados, gerando uma cena chocante. Atire com um rifle no braço de alguém e contemple a agonia do infeliz em gritos arrepiantes de dor.

Não satisfeito? Enfie uma faca na garganta e saboreie sadicamente o coitado se debruçar no chão em uma vã tentativa de tentar levar ar para os pulmões.

É surreal.

A brutalidade é tamanha que até gera desconforto. O jogo trabalha muito este aspecto de criar um incômodo, para depois você começar a gostar da violência e pedir mais e mais até o ponto de gerar um questionamento se você também foi fisgado pelo tal “ciclo”.

The Last of Us na veia

Não há muitos mistérios no gameplay. Os californianos não reinventaram a roda ou trouxeram mudanças bruscas. É aquele mesmo The Last of Us, só que maior, melhor e lapidado como um diamante.

Os pilares: combates, furtividade e recursos estão de volta.

Os enfrentamentos corporais estão mais brutos, você já sabe, e bem mais ágeis. Ainda que não tenha a força de Joel, Ellie é muito mais sorrateira e conta com uma esquiva de grande utilidade, gerando possibilidades de contra-golpes efetivas.

Outra adição é o rastejo. Você pode rastejar entre a vegetação e entrar debaixo de certas estruturas para tentar surpreender os inimigos ou escapar das vistas. E mesmo deitada, a garota consegue criar seus itens e disparar suas armas. Nem dá para imaginar The Last of Us Part II sem essa função.

E assim como no primeiro, o jogo é baseado em crafting e suprimentos. As engrenagens (parafusos) servem para melhorar as armas, os remédios para ampliar suas capacidades de criação e as revistas para aprender novas técnicas.

Da mesma forma: você vasculha os cenários, abre gavetas, armários e vai somando quantidades, até encontrar uma bancada para fazer upgrades nas armas. Tudo rigorosamente igual.

Até os menus são bem parecidos.

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Serafitas costumam usar armas como arco e flecha.

O leque de opções varia de armas brancas, até fuzis de assalto. Ainda assim, o arco e flecha continua sendo a forma mais eficaz de liquidar uma ameaça.

E agora Ellie consegue criar flechas, inclusive explosivas, após “aprender” a técnica em uma das revistas.

Só parece ter ficado um pouco mais abundante a quantidade de suprimentos. Há momentos onde você fica bem limitado, mas eles são poucos. Claro, em dificuldades mais elevadas o cenário muda.

Se há mais itens, os inimigos estão mais inteligentes. Os guardas estão sempre em movimento, e é um pouco mais complicado tentar memorizar as rotas de patrulha, já que os cachorros conseguem farejar Ellie a uma boa distância, o que a obriga a sempre se manter em movimento.

Ao todo são três tipos (quatro se contar os cachorros): os Lobos (milícia), os Serafitas e os infectados. Os primeiros são bem parecidos com os Vaga-Lumes. Andam com armas de fogo e se comportam como uma força paramilitar.

Os Serafitas (Cicatrizes) usam um pouco mais arcos e flechas e armas brancas. Contra eles você precisa ficar atento as flechas que sugam sua energia progressivamente e aos ataques com machados, facões, etc. Estes últimos podem liquidar com a garota rapidamente.

E, por fim, os infectados. Eles estão muito mais agressivos e fortes. Os corredores continuam sendo muito ligeiros, mas fáceis, os estaladores, mortais e os baiacu, uma classe gigante, feroz que agora consegue até derrubar paredes. Enfrentá-los é garantia de adrenalina. Estar bem equipado é fundamental.

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Baiacu está muito mais imponente.

Há ainda duas outras transformações: Trôpegos e Espreitadores. Os primeiros usam ataques ácidos, são fortes, mas um nível abaixo dos baiacu. Os segundos são interessantes e desafiadores.

Os espreitadores…espreitam. Ao contrário dos demais, eles se escondem, ficam observando seus passos e atacam repentinamente. Com eles, The Last of Us Part II consegue oferecer momentos de survival bem arrepiantes, daqueles de dar frio na espinha.

Outra melhoria evidente são os companheiros. Já revelado pelo estúdio, em partes do gameplay você vai estar acompanhado de uma pessoa, assim como no primeiro e em Uncharted 4.

Houve um avanço. Seus parceiros destacam posições, ajudam um pouco nos combates e até pedem desculpas quando cometem algum vacilo, como revelar sua posição. A diferença é que desta vez não há nenhuma preocupação com o ajudante. No jogo de 2013, você claramente tinha que conduzir Ellie através de áreas com água ou salvá-la de um infectado, neste não.

Talvez tenha faltado um pouco de variedade nas armas de fogo. O primeiro contava com opções mais interessantes e outros colecionáveis. Em Part II só há cards para serem localizados e alguns objetos simbólicos.

Parte pelo todo

Ambos, Part I e Part II exploram emoções, mas o segundo vai no âmago, não do amor, mas da angústia, da solidão das escolhas. E, claro, em suas consequências mais dramáticas.

Jogar The Last of Us Part II é viajar pelas profundezas obscuras da mente humana e entender que isso pode ser uma jornada apenas de ida. Essa é a mensagem que o jogo carrega no fim das contas.

Gameplay refinadíssimo, gráficos impressionantes, combates sanguinários, mundo rico em detalhes, sonoplastia belíssima e uma trama sem igual nos videogames de oitava geração. Part II impressiona, não só por isso, mas por conseguir superar o primeiro de muitas formas.

Faltou algo? Talvez mais colecionáveis, ou mesmo um modo multiplayer no estilo facções; algo que só deve chegar em atualizações futuras. Após o encerramento, não sobram muitas opções a não ser reviver a aventura… E vale a pena fazer isso!

Pesa na avaliação? Depende muito de cada tipo de jogador.

Mas a real motivação de compra é a competência do estúdio e o que ele pode oferecer no âmbito de uma narrativa single-player. E isso, meus amigos, ele faz com extrema maestria.

Toda a expectativa foi mais do que correspondida. The Last of Us Part II é uma obra de arte e mais um capítulo épico da “Geração PlayStation 4”, eternizada por seus exclusivos de peso. Aliás, falando nisso… Agora, que venha Ghost of Tsushima!

*cópia do jogo oferecida – gratuitamente – pela equipe de PlayStation em antecipado.

Veredito

The Last of Us Part II
The Last of Us Part II

Sistema: PlayStation 4

Desenvolvedor: Naughty Dog

Jogadores: 1 jogador

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100 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Jogabilidade brutal
  • Ambientação fantástica
  • Enredo profundo e emblemático
  • Trilha sonora formidável
  • Visual de altíssimo nível
Desvantagens
  • Não tem multiplayer (ainda)
  • Pouca variação de colecionáveis