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System Shock Remake: vale a pena?

Um bom remake de um ótimo jogo! Ainda que conte com algumas mecânicas engessadas, se destaca pela inventividade

por Raphael Batista
System Shock Remake: vale a pena?

Talvez você não saiba, mas System Shock é uma importante propriedade no universo dos games. O título é considerado como o pai dos immersive sims, gênero que valoriza a liberdade e a criatividade do jogador e que gerou grandes experiências como Dishonored, Prey e Thief. Lançado em 1994, o jogo introduziu mecânicas utilizadas até os dias atuais.

A qualidade de System Shock é inegável e, pelo mesmo motivo, havia uma grande responsabilidade neste remake desenvolvido pela Nightdive Studios. Mexer com clássicos é sempre um fardo que traz glórias, como visto em Resident Evil 4, ou incita a fúria da comunidade (Resident Evil 3). Felizmente, encontramos um bom resultado neste remake.

System Shock Remake é muito bom por si só justamente pela qualidade da experiência original. É impressionante notar os elementos de gameplay criados há mais de 30 anos e como eles continuam modernos. Contudo, como um remake, a Nightdive Studios parece entregar algo simples. Na verdade, em alguns momentos, o título se define mais como uma remasterização de luxo do que propriamente um remake.

Aqui temos um exemplo nítido de um conteúdo feito para quem já é fã. Os jogadores que amam a franquia ou o gênero terão prazer em voltar ou conhecer este universo. Porém, para quem esperava um produto com melhores ajustes ou uma repaginada, pode não se interessar tanto. No fim das contas, o estúdio apostou no seguro e fez um remake bom de um ótimo game.

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Menu principal de System Shock. Fonte: captura de tela.

Guerra contra IA

Se você pensa que a inteligência artificial é um assunto contemporâneo, então não poderia estar mais enganado. Em System Shock, o jogador assume o controle de um hacker preso por suas atividades ilegais, mas que recebe uma chance de ficha limpa se deter a IA chamada de SHODAN. Logo, o protagonista descobre segredos sórdidos no desenvolvimento desta inteligência suprema que coloca em cheque a vida na Terra.

O panorama existe apenas para um pano de fundo narrativo, pois o personagem se encontra sozinho na espaçonave e, por isso, não desenvolve diálogos a não ser pelos colecionáveis em áudio que encontra ou pelas interações momentâneas da SHODAN. Por mais que seja muito fácil compreender o que está acontecendo, chega a ser desestimulante a quantidade de objetos para capturar a fim de ter mais detalhes sobre a trama.

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A IA SHODAN se define como uma entidade perigosa para a humanidade. Fonte: captura de tela.

O pai das liberdades

Jogar System Shock após ter conhecido Dishonored, Prey e outros immersive sims é uma experiência um tanto quanto singular. Isso porque os jogos mais recentes aprimoram os recursos dos jogos passados. Contudo, ao mesmo tempo, é surpreendente a forma como um título de 1994 consegue se manter interessante e divertido.

Na missão de derrotar a SHODAN, o jogador precisa descobrir o que fazer. Não há um indicativo no mapa ou um objetivo principal. É através da exploração e da leitura dos documentos que as pistas são deixadas e então você descobre o que precisa fazer logo em seguida. Dessa forma, não existe um caminho certo a ser seguido. Tudo depende de como você quer enfrentar os desafios e resolver as charadas.

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O jogador define por onde começará a exploração pelo mapa. Fonte: captura de tela.

O sistema de dificuldade, inclusive, pode modificar completamente a experiência do jogador. É possível personalizar o nível de agressão da IA, as dificuldades dos puzzles e como o protagonista se recupera ou ataca. Com essa variedade de opções, é possível concluir a campanha com 6 horas ou 30 horas. O tempo dependerá exclusivamente de como o jogador enfrentará e superará os desafios.

Por falar em puzzles, há dois tipos: os específicos e o da história geral. No primeiro caso, eles não são tão desafiadores, exigindo conectar caminhos com os interruptores. Agora, no segundo caso, o jogador precisa pensar para entender onde deve estar, os itens que precisa coletar, os dispositivos que precisa ativar e as portas que deve abrir.

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Alguns quebra-cabeças exigem atenção e tentativas até a resolução. Fonte: captura de tela.

System Shock brilha nesse level design inteligente com mapas interconectados e com elementos que precisam ser interagidos, mas facilmente passam despercebidos. Não há um marcador no mapa e nem um destaque no visor do personagem. Os objetos precisam ser identificados pela sua aparência e brilhos, exigindo o jogador coletar algo em um nível para levar para outra sala a fim de liberar novos caminhos.

Por um lado, é muito instigante e extremamente recompensador avançar nos desafios quando você percebe que entendeu a tarefa. Por outro, é muito angustiante passar por horas sem saber o que precisa ser feito porque não há nenhum indicativo ou diário para te ajudar. Assim como os jogos clássicos, System Shock parece exigir um detonado do lado para não se perder.

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Sem objetivo no mapa, o único jeito de avançar é prestando atenção nos cenários e objetos. Fonte: captura de tela.

Neste quesito, o remake não está muito preocupado em ser um remake. Faltou melhorias na interface e até mesmo no sistema de jogabilidade, principalmente no combate. Os equipamentos e armamentos de fogo possuem impactos e movimentações que fogem do natural. Além disso, as mecânicas de gerenciamento não funcionam tão bem para os controles de videogame, indicando que são criadas para o PC (tanto é que há atalhos rápidos enumerados de 1 a 9 como no teclado).

System Shock preza tanto pela experiência e essência original que descarta recursos que poderiam ser introduzidos para tornar a jogabilidade mais dinâmica e menos engessada. Talvez fosse o intuito da Nightdive em valorizar a comunidade veterana, mas o tiro pode sair pela culatra em razão dos próprios jogadores terem conhecido games modernos que são mais gostosos de jogar, como o próprio Dishonored.

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O combate parece não ter evoluído no remake, sofrendo com movimentações pesadas e nada naturais. Fonte: captura de tela.

Um verdadeiro remake nos gráficos

Se a jogabilidade se mantém pura, o mesmo não pode ser dito dos gráficos e sons. O visual de System Shock está completamente transformado – e isso é um grande elogio. O universo futurista foi criado a partir de elementos cyberpunk e distópicos, gerando cenários e ambientes muito bonitos. Os monstros e inimigos possuem características mais genéricas e comuns, só que os gráficos do game foram inteiramente reformulados.

A trilha sonora contou com melhorias consideráveis e as mudanças são perceptíveis de acordo com os momentos de tensão ou mistério que envolvem o jogador. Avançar em cada nível da espaçonave ativa a faixa tema da região, trazendo sensações únicas a cada corredor ou a cada puzzle solucionado. Jogar com fone de ouvido traz uma imersão muito positiva que vale a experiência.

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Com o visual distópico e cibernético, o game tem um apelo muito forte. Fonte: captura de tela.

System Shock Remake: vale a pena?

Como jogo, System Shock prova que é como o vinho e melhorou com o tempo. Embora já tenha 30 anos de existência, suas mecânicas não envelheceram mal. Na verdade, a modernização do visual permitiu que o título fosse mais atrativo para os consoles modernos. No entanto, como um produto remake, ele é simples até demais.

A falta de opções para tornar a experiência mais palatável para novos públicos e a superficialidade na adequação de controles são pontos a serem considerados. Pelo preço de R$ 199,50, o game pode deixar o jogador rapidamente frustrado pela dificuldade em direcionar o progresso ou situar na posição da história. Tudo dependerá da resiliência do jogador e de sua capacidade em interpretar os eventos.

Para quem é amante dos immersive sims, o título, com certeza, agradará. Para quem busca conhecer a proposta, o ideal é se situar com games mais recentes, experimentando doses mais leves antes de ir para a parada mais pesada.

Veredito

System Shock
System Shock

Sistema: PlayStation 5

Desenvolvedor: Nightdive Studios

Jogadores: 1

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82 Ranking geral de 100
Vantagens
  • Mecânicas criativas
  • Visual transformado
  • Trilha sonora imersiva
  • Personalização de dificuldade
Desvantagens
  • História pouco explorada
  • Ausência de elementos mais modernos
  • Combate engessado
Raphael Batista
Raphael Batista
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Jogando agora: Dredge | Shadow of the Erdtree
Formado em Teologia e apaixonado por PlayStation desde sempre. Jogos preferidos são The Witcher 3, Metal Gear Solid, God of War e Marvel's Spider-Man.