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Mass Effect: Andromeda: Vale a pena?

Será que vale a pena dar uma chance ao novo Mass Effect ?

por Daniel dos Reis
Mass Effect: Andromeda: Vale a pena?

Mass Effect: Andromeda é semelhante a um equilibrista de circo. Ele anda na corda bamba, deixando o público aflito a cada passo. Quando uma desastrosa queda parece inevitável, o acrobota se recupera no último segundo, continuando em uma caminhada aparentemente segura.

O novo jogo da BioWare funciona exatamente dessa forma. Oferece pontos consistentes, mas escorrega em outros, sempre deixando uma sensação estranha. Afinal, o jogo é bom ou não?

Se por um lado ele entrega um sistema de relacionamentos profundo, com diversas possibilidades que desencadeiam ações diferentes, ele tropeça em bugs terríveis. Se as opções de habilidades são muito boas, a organização dos menus e algumas escolhas de mecânicas deixam a desejar. Se os personagens são bacanas, é muito comum se perder entre tantas missões.

São muitos “se“s.1

E esse desalinho faz com que uma opinião concreta seja difícil de ser cravada. Talvez por isso esta avaliação levou tanto tempo para ficar pronta.

A despeito de tantas críticas que o jogo já recebeu, façamos um trato especial: tente acompanhar a crítica sem um pré-conceito e considere mais fatos que emoções. O jogo não é este “bichão” esbravejado por aí, mas também não é nenhuma maravilha.

Morde & Assopra

É o típico comportamento de uma pessoa que, de alguma forma, magoa outras e posteriormente tenta agradar, oferecendo mimos e agindo como se nada tivesse acontecido. Em Andromeda isso é uma constante.

E ele começa bem, oferecendo aos jogadores a possibilidade de escolher entre dois heróis-irmãos – Sara Ryder ou Scott Ryder –  A escolha de um ou outro não altera o enredo, mas foge um pouco dos jogos anteriores onde você assumia a sua versão de Sheppard.

Os gêmeos estão em uma coalização interestelar que envolve diversas raças. A este tratado, foi dado o nome de Iniciativa Andromeda – um colossal esforço conjunto para colonização da galáxia de Andromeda por meio do envio de arcas. Quatro no total – sob o comando da Exploradora (ou Explorador) está a Hyperion, a nave responsável pelo transporte dos colonos-viajantes.

Mas, como era de se imaginar, algo dá muito errado e a exploradora deve empreender esforços para realmente encontrar um novo lar e garantir que a expedição tenha sucesso. Nisto, viagens e explorações serão o ponto-chave desta nova aventura que se passa muitos anos após o Mass Effect 3, portanto é um arco diferente da trilogia original.

Apesar da aparente simplicidade, a narrativa é bem construída.  O (a) Explorador (a) – nome dado ao comandante de uma arca – inicialmente é visto com muita desconfiança pelos membros da Iniciativa e deve ainda provar seu valor. E isto é possível por meio da realização de missões e nas respostas oferecidas nos diálogos.

E aqui um dos principais pontos positivos do game aparece. Os diálogos e o convívio com seres de mundos diferentes proporciona conversas e tratativas muito abrangentes. Uma determinada raça pode se ofender com uma resposta mais ríspida, outras – geralmente as guerreiras – nem tanto.

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As escolhas determinam o enredo. Fonte: captura de tela.

Ao longo do game, os jogadores devem fazer escolhas que determinam os rumos da exploração. As vezes uma resposta mal dada pode acarretar na perda de um aliado de valor ou desencadear uma intimidade. Em alguns casos, é literalmente ficar entre a cruz e a espada e isso é muito bacana.

Não é raro estar diante de uma discussão, ter que optar por uma posição e, invariavelmente, a escolha deixar alguém insatisfeito. Será preciso gerenciar crises.

E neste compasso,  a (o) comandante Ryder vai construindo seu caminho, ao mesmo tempo em que monta um time de vencedores. É uma jornada intensa. Ganhar o respeito do time, conquistar admiração dos superiores e ainda salvar a Iniciativa.

Entretanto, o ritmo da narrativa começa em passos muito lentos, o que pode frustar aqueles que preferem partir logo para ação. Mass Effect: Andromeda é um jogo de muita conversação, de linhas e mais linhas de textos e dezenas de áudios. Tudo isso serve para aprofundamento no conhecimento das variadas raças, motivações, detalhes da Iniciativa e desenrolar da trama.

Mas isso não é ruim. Pelo contrário. Oferece aos jogadores a possibilidade de conhecerem muito sobre a lore do título, rica em diversidade. Temos aqui ficção científica de alto nível com interações muito legais.

E acabamos voltando ao “se”. Se a profundidade é inquestionável e repleta de boas opções, muitos vão se sentir confusos quanto à realização das missões. Isso porque o jogo não oferece de forma muito clara aquilo que deve ser feito naquele momento. Mesmo que exista um menu com a opção de “prioritários”.

Até os mais veteranos vão questionar a ordem das linhas da trama. Ryder e sua equipe devem visitar vários planetas, instalar assentamentos e descobrir as razões pelas quais os Kets, antagonistas de Andromeda,  estão tentando impedir o sucesso da Iniciativa e quais são seus reais planos.

Em meio a isso, existem as sidequests. Cada membro da equipe conta com uma história particular e explora-las é interessante para conhecer melhor a raça de cada um, seus ideais e também ganhar confiança. Como explicado, alguns ainda não acreditam no potencial de liderança de Ryder.

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“Do jeito que você me olha, vai dar namoro”. Fonte: captura de tela.

E, mesmo que seja um arco distinto da trama original, Andromeda não é muito acessível aos jogadores. Aqueles que nunca se aventuraram em algum dos jogos anteriores deverão, ao menos, buscar  informações sobre a franquia. São muitas raças e tramoias anteriores que, mesmo não interferindo no enredo atual, precisam ser conhecidas. Não que seja imperativo, mas é útil como complemento.

Tem ação sim

Talvez possa parecer que o jogo seja sempre de diálogos, mas não é. Os combates correspondem a outra grande fatia da experiência. E eles foram melhorados, se comparados a própria franquia e deixam a desejar quando colocados lado a lado com outros nomes (a jogabilidade evoluiu dentro da própria franquia mais ainda sim fica aquém de outros do gênero). Por isso, cabem dois contra-pontos.

O andar de Ryder é mais fluído que o de Sheppard,  menos robótico e com uma curva de aprendizado de fácil para mediana. Corrida, caminhada e exploração são agradáveis. Tanto o controle da heroína (ou herói) ou da Nomad – veículo utilizado para exploração nos planetas – são fáceis. Só a Nomad repassa uma sensação de “carrinho de brinquedo”, mas nada que comprometa.

O porém – neste caso, o “se” – fica por conta do sistema de cobertura automático. Com a arma em punho, a Exploradora ‘entra em cobertura’ ao se aproximar de alguma barricada ou parede. Mas isso nem sempre funciona adequadamente. Por vezes, a personagem não se posiciona de maneira conveniente ou se abaixa quando não deveria.

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Os combates são legais, mas o sistema de cobertura é falho. Fonte: captura de tela.

Fora os enroscos. Quando encurralado, é comum se frustar ao ver o personagem executar uma cobertura totalmente inadequada para o momento. Ou mesmo quando não conseguir sair da enrascada. Revolta.

O sistema de menus também não é funcional. Escolher entre armas e tipos de munições até funciona, mas poderia ser melhor disposto na tela. Um quick-menu, como implementado na maioria dos jogos atuais, seria muito mais viável e preciso.

E não é só nos combates que as opções decepcionam. No momento de realizar negociações com comerciantes, equipar habilidades, mods e outras atividades, será comum ficar confuso, mesmo com muitas horas de jogo. A compra e venda de itens, por exemplo, é muito ruim por não mostrar de forma clara se o item-equipamento está equipado, é melhor ou pior que o desejado.

Além disso, o jogo limita bastante o controle dos demais membros da party. Ao iniciar uma missão, pode-se escolher outros dois companheiros. Mas, durante a partida, os comandos são limitadíssimos. É possível somente solicitar que a equipe ataque determinados inimigos ou vá para um local. Só isso. A elaboração de estratégias e investidas quase inexiste.

Some isso ao fato da inteligência artificial dos parceiros não ser das melhores. Será comum presenciar um amigo olhando para para o vazio enquanto a batalha está frenética do outro lado. Eles não ‘pensam’. Pelo menos não atrapalham.

Mas, o sistema de habilidades de classes agrada bastante.  Aqueles que gostam de muitas possibilidades de escolhas e variações, ficarão satisfeitos com Mass Effect: Andromeda. Cada habilidade exige pontos para incremento da sua árvore.

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São três grandes áreas. Cada uma delas contam com muitas habilidades. Fonte: captura de tela.

São três grandes áreas que podem ser melhoradas ao longo da jogatina: Combate, Tecnologia e Biótica. Cada uma dessas conta com diferentes habilidades. Com isso, o jogador pode moldar o seu (sua) Ryder da maneira que desejar: Claro que o aproveitamento de todas as possibilidades vai gerar um herói muito mais competente. O interessante aqui é que quase todas as skills são legais, e evoluir todas vai exigir muitas horas de jogo.

E sempre que os pontos investidos em habilidades atingirem um determinado nível, tipos de perfis são desbloqueados. Perfis funcionam de forma semelhante a classes. Em Andromeda você pode ser soldado, engenheiro, sentinela, etc. Cada uma delas oferece características que podem incrementar uma determinada área. E, caso o jogador não goste, basta reconfigurar.

Neste quesito, a diversidade é bem abrangente e um ponto positivo.

Positiva ainda é a quantidade de locais para exploração. As galáxias contam com planetas variados em climas e topografia.  E é bom estar equipado para as adversidades. Habilidades para resistir ao frio intenso, calor extremo ou mesmo radiação. O grande mapa impressiona pela quantidade de visitas possíveis. Montar bases onde são oferecidos recursos e avanço da Iniciativa.

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São muitos planetas para visitar. Fonte: captura de tela.

O que não impressiona tanto são os gráficos. Usando a mesma tecnologia de Battlefield 1, Andromeda poderia oferecer algo mais bonito. O jogo não é feio. Só cumpre seu papel.

Ainda existe um modo multiplayer, bastante simples é verdade, mas funcional e que entretém por um bom tempo. Nele, junto com outros três jogadores, enfrentamos hordas de inimigos em diversos mapas.

A opção funciona muito bem, com boas escolhas de personagens, personalização, compra in-game de cartas de itens e até melhoria de habilidades (não chega a ser tão amplo como no modo campanha, mas é convincente).

Nas partidas, além de enfrentar hordas, objetivos aleatórios surgem: matar um alvo, defender um ponto, conquistar um ponto, etc.

Houston, we have a problem

Se até agora os “se” positivos equilibravam o game, os problemas técnicos farão com que esta gangorra desça. Mass Effect: Andromeda conta com inúmeros problemas técnicos, principalmente bugs. E não há “se” para contrabalancear.

Durante o jogo, é comum presenciar personagens atravessando paredes, desaparecendo, flutuando, travando, etc. Isso acaba por gerar algumas bizarrices. O vídeo abaixo, capturado para esta revisão, ilustra um problema. A Exploradora morreu, mas por algum motivo, continua atirando. Ao que parece, o jogo não reconheceu a morte e não apresentou a tela de reinício. Foi necessário reiniciar o aplicativo.

E aí entram alguns graves problemas. Em alguns casos (vários), as ações simplesmente não iniciavam, impedindo o progresso. As mais comuns aconteceram quando era necessário interagir com algum painel. O jogo não respondia ao comando. Resultado: reinício.

Eis algumas situações:

  • A porta do alojamento se fechou e não abria mais, deixando o personagem preso. Reinício.
  • O áudio paralisava do nada ou ficava com ruídos ou chiados. Reinício.
  • O ângulo da câmera impedia a localização de um ponto importante para aportar no planeta. Reinício.
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As animações são estranhas. Fonte: captura de tela.

Sem contar ainda com as terríveis animações do jogo. Mesmo que um diálogo seja importantíssimo e que certamente exigiria uma expressão à altura, é sempre a mesma feição.

Pop-in nos cenários, atrasos nos carregamentos e texturas pouco criativas também somam forças nestes pontos.

Mesmo que a BioWare tenha se comprometido com as melhorias, a imagem do título já foi manchada. Ao que parece, faltou tempo para que os desenvolvedores lapidassem o projeto final.

Voilà

E neste ‘balança mais não cai’, Mass Effect: Andromeda acabou por tender demais para o outro lado. Não chega a ser uma completa tragédia, mas decepciona, principalmente, nos aspectos técnicos.

Os pontos falhos elucidados: menus confusos, jogabilidade pouco inteligente e ainda a pouca profundidade de algumas missões secundárias, foram suplantadas pelo universo consistente, boas opções de escolha e muitas personalizações nas habilidades, todavia estes pontos positivos não foram capazes de frear a decepção com os problemas técnicos.

Isso faz de Andromeda um jogo apenas levemente acima da nota 6, o que para os fãs da série, sempre acostumados com jogos de padrões elevados, é uma decepção. E não só para eles, para todos de uma forma geral.

Daniel dos Reis
Daniel dos Reis
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Jogando agora: Gran Turismo 7 | Horizon Forbidden West
Manager do MeuPS e um cara de muita sorte por trabalhar com aquilo que gosta.